Universo da obra
Universo da obra
Uma vez, num sonho, uma mulher me disse ao ouvido que a felicidade estava dentro de nós mesmos e que nós a aprisionávamos. Eu devia ter prestado atenção na frase, mas me distraí com a voz baixa, o hálito perto do meu pescoço e as curvas que o lençol não escondia. Quando acordei, lembrava melhor do corpo do que das palavras.
Durante muito tempo procurei aquela mulher. Esperei encontrá-la numa livraria, num bar, atravessando uma rua, sentada duas fileiras à minha frente num cinema. Tratava o sonho como uma lembrança e demorava os olhos em cada rosto novo. Acreditava que ela apareceria repleta de enigmas e que me reconheceria antes que eu dissesse qualquer coisa.
Anos depois, eu já tinha apanhado o suficiente para desconfiar daquela promessa de reencontro. Passei a procurar um sentido mais objetivo para a frase. Li sobre fé, morte, desejo e comportamento, enchi páginas tentando organizar respostas e vi quantas certezas desmanchavam diante de uma doença, de uma separação ou de uma conta que não podia esperar. A morte surgia nas notícias, nas conversas de bar, no comentário de uma vizinha sobre outra família. Nada disso me aproximou da frase do sonho.
Escrevia contos eróticos e sabia conduzir um leitor da curiosidade até o desejo sem entregar tudo no primeiro parágrafo. Gostava da distância estreita entre o prazer físico e o sentimento, da mudança que uma mão, uma recusa ou um instante de espera podia provocar numa relação. Eu exportava meus sonhos para a cabeça dos outros, e cada leitor completava o que eu deixava de fora. Meus textos funcionavam porque eu levava a sério fantasias que muita gente só admitia no escuro.
Nunca estava satisfeito. Terminava um conto e já procurava o começo do próximo, convencido de que ainda não tinha deixado no papel tudo o que poderia. Ao mesmo tempo, quase nunca me sentia parte do mundo para o qual escrevia. Protegia meus horários, minha casa, meus desejos e a porta de saída de qualquer relação. Para mim, independência também significava não precisar explicar por que eu queria ir embora.
A praia era onde eu escrevia melhor. Eu ocupava a mesa mais próxima da areia num quiosque aberto, com o caderno diante de mim e o mar além das cadeiras vazias. O ruído da água ficava ao fundo. O vento empurrava a camisa contra o corpo, virava a ponta de uma folha e mudava de direção no intervalo de uma frase. Eu mantinha a mão sobre o papel e observava os poucos passantes, os gestos que faziam quando acreditavam não estar sendo vistos, a maneira de oferecer ou esconder o corpo.
Naquela tarde, o céu estava cinzento e a praia, quase vazia. As ondas quebravam baixas junto à costa. A chuva começou fina, levada de lado pelo vento frio, e logo pontilhou a página. Arrastei a cadeira para debaixo do toldo sem fechar o caderno. A rajada seguinte alcançou a mesa, molhou a margem da folha e desfez uma palavra que eu acabara de escrever.
Foi quando vi uma mulher vindo da direção da cidade. Estava descalça e completamente vestida, com a roupa já escura de chuva, a cabeça baixa e os braços junto ao corpo. As mãos tremiam. Não vi seus olhos. Ela cruzou a areia e entrou no mar sem mudar o passo. Inclinei-me sobre o caderno para proteger a página; quando tornei a olhar, a água alcançava os joelhos dela.
Pensei que quisesse apenas caminhar na água e que, já encharcada, não se importasse em molhar mais a roupa. Ela avançou. A água subiu até a cintura, recuou, voltou ao peito e alcançou o pescoço. Eu ainda tentava encontrar uma explicação que me permitisse ficar sob o toldo.
Larguei o caderno e corri.
Entrei no mar sem tirar a roupa. As primeiras ondas passaram baixas por mim, mas a corrente puxou minhas pernas quando a água chegou à cintura. Eu ainda via a cabeça dela; depois uma onda quebrou acima de seu rosto e restou apenas o cabelo. Gritei, embora não soubesse o nome que devia gritar. Ela voltou à superfície por um instante, tossiu e se moveu para mais longe da praia. Outra onda a cobriu. Um salva-vidas percebeu minha corrida, veio atrás de mim e passou a procurar alguns metros adiante.
A maré subia depressa. Mergulhei, abri os olhos na água turva e encontrei apenas areia revolvida. Voltei à superfície sem ar, puxei outra respiração e desci de novo. A chuva picava a superfície e o vento empurrava as ondas contra nós. Sob o céu cinzento, cada tentativa mudava o lugar onde eu julgava tê-la visto por último. O salva-vidas apontava, nadava, desaparecia sob a água e ressurgia longe.
Algo roçou minha perna.
Mergulhei e agarrei tecido. O corpo estava abaixo de mim, levado de lado pela corrente. Passei um braço por baixo dos ombros dela, puxei-a contra o peito e chutei a água até voltar à superfície. O salva-vidas chegou, segurou o outro lado e nós a arrastamos para a areia, tropeçando quando a força do mar deixou de sustentar seu corpo.
Ajoelhei ao lado dela. Afastei o cabelo molhado de sua boca, inclinei sua cabeça e comecei a reanimação. Meus braços endureciam a cada compressão. Soprei ar, voltei ao peito, contei, perdi a conta e recomecei. Os olhos dela permaneceram fechados. O salva-vidas assumiu meu lugar e eu corri pela praia pedindo socorro, procurando um telefone, uma ambulância, qualquer pessoa que pudesse fazer melhor do que nós.
Quando voltei, ele ainda tentava. Algumas pessoas tinham saído do quiosque e se juntado ao redor, sob a chuva, sem falar alto. A água escorria da roupa dela e abria um caminho escuro na areia. O rosto era bonito, jovem demais para aquela imobilidade, mas eu não conseguia separar beleza de morte enquanto via as mãos do salva-vidas comprimirem seu peito.
O socorro chegou tarde para ela.
Não havia documento nos bolsos, bolsa na areia, telefone ou alguém procurando por seu rosto entre as pessoas. Perguntaram se eu a conhecia. Respondi que não. Perguntaram o que eu tinha visto, e ouvi minha própria voz repetir a caminhada, a roupa, as mãos trêmulas, o momento em que ela desapareceu. Quando tentei lembrar dos olhos, só encontrei as pálpebras fechadas e o cabelo grudado no rosto.
Passei a noite acordado. Toda vez que fechava os olhos, voltava ao instante em que me inclinei para salvar uma página da chuva e deixei de acompanhar os passos dela. Eu não podia provar que aqueles segundos teriam mudado o fim. Mesmo assim, minhas pernas ainda guardavam a corrida, o peito doía do esforço no mar e as mãos repetiam a pressão da reanimação sobre o colchão.
Perto da madrugada, levantei e saí. Escolhi um bar porque a vodka com gelo e limão costumava embaralhar o que eu não conseguia resolver. Depois de algumas doses, eu ainda contava o avanço da água pelo corpo dela. Coloquei um papel sobre a mesa, procurei uma caneta no bolso e tentei escrever sobre seu olhar. Parei na primeira linha. Eu não tinha visto seus olhos.
Sempre tratei o olhar como a parte menos obediente de uma pessoa. A boca podia mentir, o corpo podia aceitar por medo ou recuar por orgulho, mas os olhos costumavam estragar o esforço. Na praia, uma vida passara pelas minhas mãos e eu não tinha levado dela nem isso. O papel ficou vazio, molhado na borda pelo copo.
O barulho começou numa mesa ao lado. Um homem entrou gritando depois de encontrar a mulher aos beijos com outro. Duas pessoas tentaram segurá-lo; ele afastou a primeira com o ombro e derrubou a segunda contra uma cadeira. As veias do pescoço saltavam enquanto as palavras saíam cada vez mais altas e menos compreensíveis. Ele agarrou a mulher pela garganta e a ergueu. Quando viu o rosto dela perder a cor, abriu os dedos. Ela caiu tossindo junto à mesa.
O outro homem se levantou e puxou uma arma.
O bar inteiro parou. Garrafas permaneceram suspensas nas mãos, uma cadeira tombada ainda girou por um momento e depois só ouvi a respiração de quem estava perto. O homem traído encarou o cano, recuou um passo e avançou com uma voadora. O golpe atingiu o braço armado.
O tiro ecoou no salão.
O atirador foi derrubado e várias pessoas se jogaram sobre ele. Outras procuravam a bala nas paredes, nos copos, em algum corpo. Eu também olhei ao redor. Não senti dor. Foi quando baixei a cabeça e vi um ponto vermelho se espalhando pela minha camisa branca.
Levei a mão ao peito. Pelo lugar em que o sangue saía e pela rapidez com que meu corpo falhava, soube que a bala tinha alcançado o coração. O sangue atravessou meus dedos, quente durante um instante, enquanto o restante do corpo começava a esfriar. Tentei me levantar e as pernas não responderam. A mesa bateu no meu quadril, o copo caiu, gelo e rodelas de limão se espalharam pelo chão. Alguém correu na minha direção. Depois vieram outros rostos, mãos tentando estancar o ferimento, vozes perguntando meu nome e pedindo espaço.
Caí de lado. O ar entrava pouco e saía num ruído úmido. Vi minha mãe, minha família, os amigos que eu procurava quando tinha vontade e deixava esperando quando não tinha. Lembrei dos leitores, dos livros e da mulher do sonho, que continuara pertencendo apenas a mim porque assim nunca poderia exigir nada. Nenhuma dessas pessoas estava ali. Os desconhecidos ao meu redor tentavam me manter acordado e não sabiam a quem chamar.
Passei anos escolhendo quando abrir a porta, quando atender o telefone e quando ir embora. Naqueles segundos, enquanto a camisa encharcava e meus dedos já não conseguiam apertar o ferimento, não havia uma única mão conhecida segurando a minha.
O meu adeus não teria dono.
Magno sempre soube ir embora. Pessoas, amores, promessas: ele mantinha uma saída para tudo. Então tentou salvar uma desconhecida que entrou no mar e, poucas horas depois, morreu sem descobrir quem ela era.
A morte o deixou muito longe da vida que conhecia. Magno despertou entre povos capazes de governar o vento, num reino tomado por um general e no mesmo corpo de Henri, o herdeiro que deveria enfrentá-lo. Dividir força e memória com outra pessoa tornou impossível continuar tratando cada vínculo como prisão.
Ao lado de Henri, ele atravessará guerras, exílios e mundos onde ninguém morre apenas uma vez. Encontrará amores, famílias e alianças que já não conseguirá abandonar sem levar alguma coisa deles. E, enquanto o próprio Universo caminha para o fim, precisará decidir o que ainda significa ser livre quando fugir deixou de ser a resposta.
Leitura rápida, um conto envolvente; porque traz um enredo de mistério e espera. Sobre a inconstância do vento, análogo à vida.
Acabei de ler e fiquei de boca aberta, tipo???? O cara passa o texto inteiro filosofando sobre a vida, sobre observar as pessoas, sobre o vento na praia... aí vê uma mulher entrar no mar e morrer, fica obcecado com o olhar que não viu, vai num bar beber pra esquecer e DO NADA leva um tiro no coração?? Que plot twist é esse??? Gente, será que ele vai encontrar ela? Tipo, agora que os dois morreram, será que vão se encontrar em outra dimensão? Ou será que ela era tipo um anjo, veio buscar ele? E aquele negócio do olhar... ele não viu o dela, ela não viu o dele... será que vão se encontrar pra finalmente se olharem? Tô confusa, chocada e querendo o próximo capítulo AGORA. Alguém mais ficou assim?
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Acabei de ler e fiquei de boca aberta, tipo???? O cara passa o texto inteiro filosofando sobre a vida, sobre observar as pessoas, sobre o vento na praia... aí vê uma mulher entrar no mar e morrer, fica obcecado com o olh...
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