O mapa de Enterrado nas Profundezas mostra corredores, galerias e acessos. Fora dele ficam a água retirada de madrugada, o concreto remendado e a marca de giz deixada por quem percebeu uma rachadura antes dos engenheiros. A cidade atravessa o túnel sem conhecer esse trabalho.
Manutenção produz poucos monumentos. Seu resultado é uma parede que permanece de pé e um cabo que não incendeia. Quando o reparo é adiado, a ferrugem registra a decisão: primeiro muda a cor do metal, depois prende uma válvula, por fim obriga alguém a entrar onde já não havia segurança.
Juvêncio Guimarães conduz o olhar para debaixo do caminho cotidiano. Ali, cada conserto tem data, custo e responsável, mesmo que a placa da inauguração omita esses nomes. Um memorial honesto da cidade deveria guardar também as inspeções canceladas e os avisos que chegaram antes do desabamento.
Texto da revista Sob os Escombros, em diálogo com Enterrado nas Profundezas.