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Ilusão

Capítulo 1 · Ilusão

Ilusão

Quando o astro do dia desmaia

Só brilhando com pálido lume,

E que a onda que brinca na praia

No murmúrio soletra um queixume;

Quando a brisa da tarde respira

O perfume das rosas do prado,

E que a fonte do vale suspira

Como o nauta da pátria afastado;

Quando o bronze da torre da aldeia

Seus gemidos aos ecos envia,

E que o peito que em mágoas anseia

Bebe louco essa grave harmonia;

Quando a terra, da vida cansada,

Adormece num leito de flores

Qual donzela formosa embalada

Pelos cantos dos seus trovadores;

Eu de pé sobre as rochas erguidas

Sinto o pranto que manso desliza

E repito essas queixas sentidas

Que murmuram as ondas co'a brisa.

É então que a minha alma dormente

Duma vaga tristeza se inunda,

E que um rosto formoso, inocente,

Me desperta saudade profunda.

Julgo ver sobre o mar sossegado

Um navio nas sombras fugindo,

E na popa esse rosto adorado

Entre prantos p'ra mim se sorrindo!

Compreendo esse amargo sorriso,

Sobre as ondas correr eu quisera...

E de pé sobre a rocha, indeciso,

Eu lhe brado: - não fujas, - espera!

Mas o vento já leva ligeiro

Esse sonho querido dum dia,

Essa virgem de rosto fagueiro,

Esse rosto de tanta poesia!...

E depois... quando a lua ilumina

O horizonte com luz prateada,

Julgo ver essa fronte divina

Sobre as vagas cismando, inclinada!

E depois... vejo uns olhos ardentes

Em delírio nos meus se fitando,

E uma voz em acentos plangentes

Vem de longe um - adeus - soluçando!

Ilusão!... que a minha alma, coitada,

De ilusões hoje em dia é que vive;

É chorando uma glória passada,

É carpindo uns amores que eu tive!

Lisboa - 1856.

Quando o astro do dia desmaia

Só brilhando com pálido lume,

E que a onda que brinca na praia

No murmúrio soletra um queixume;

Quando a brisa da tarde respira

O perfume das rosas do prado,

E que a fonte do vale suspira

Como o nauta da pátria afastado;

Quando o bronze da torre da aldeia

Seus gemidos aos ecos envia,

E que o peito que em mágoas anseia

Bebe louco essa grave harmonia;

Quando a terra, da vida cansada,

Adormece num leito de flores

Qual donzela formosa embalada

Pelos cantos dos seus trovadores;

Eu de pé sobre as rochas erguidas

Sinto o pranto que manso desliza

E repito essas queixas sentidas

Que murmuram as ondas co'a brisa.

É então que a minha alma dormente

Duma vaga tristeza se inunda,

E que um rosto formoso, inocente,

Me desperta saudade profunda.

Julgo ver sobre o mar sossegado

Um navio nas sombras fugindo,

E na popa esse rosto adorado

Entre prantos p'ra mim se sorrindo!

Compreendo esse amargo sorriso,

Sobre as ondas correr eu quisera...

E de pé sobre a rocha, indeciso,

Eu lhe brado: - não fujas, - espera!

Mas o vento já leva ligeiro

Esse sonho querido dum dia,

Essa virgem de rosto fagueiro,

Esse rosto de tanta poesia!...

E depois... quando a lua ilumina

O horizonte com luz prateada,

Julgo ver essa fronte divina

Sobre as vagas cismando, inclinada!

E depois... vejo uns olhos ardentes

Em delírio nos meus se fitando,

E uma voz em acentos plangentes

Vem de longe um - adeus - soluçando!

........................

Ilusão!... que a minha alma, coitada,

De ilusões hoje em dia é que vive;

É chorando uma glória passada,

É carpindo uns amores que eu tive!

Ilusão

Sinopse

Leia Ilusão, de Casimiro de Abreu, grátis no Literunico. Poema clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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