Universo da obra
Universo da obra
Marina acordou antes do alarme, com a boca seca, a nuca quente e um dos braços de Caio atravessado sobre a barriga dela como se aquilo tivesse sido combinado durante o sono. O quarto estava feio de manhã. A luz que entrava pela fresta da cortina deixava visíveis a toalha caída perto da porta do banheiro, a camisinha amarrada dentro do cesto, o vestido preto embolado junto à poltrona, a calcinha largada debaixo da bancada e uma garrafa de água vazia em cima da mesa. A cidade fazia barulho sem cerimônia do lado de fora, ônibus freando, buzina curta, alguém arrastando alguma coisa no corredor do andar. Marina ficou imóvel por alguns segundos, não por delicadeza, e sim para descobrir se o peso do braço dele a irritava. Não irritou. Isso a deixou desconfiada.
Caio dormia de lado, com a barba amassada no travesseiro e a respiração funda de quem tinha apagado sem pedir desculpa ao próprio corpo. Marina virou o rosto devagar e olhou para ele. Sem câmera, sem camisa preta, sem parede para encostar, ele parecia menos organizado. Havia uma marca vermelha no ombro dele, feita pelos dentes dela, e um arranhão comprido descendo das costas até perto da cintura. Ela lembrava de ter feito os dois. Lembrava também da segunda vez depois do banho, quando ele deitou como ela mandara, e ela sentou sobre a boca dele sem pressa, usando a nuca dele como apoio, dizendo exatamente onde queria a língua, os dedos e a pausa. Tinha gozado com a mão presa no cabelo dele e depois rido quando ele, ainda entre as pernas dela, pediu água com a voz destruída.
Ela tirou o braço dele de cima da barriga com cuidado suficiente para não acordá-lo. Sentou na beirada da cama, encontrou o celular no chão e viu sete mensagens, duas chamadas perdidas da produtora da noite anterior e um e-mail de assunto ruim: “Convite Festival Corpo e Palavra - Programação Final”. Marina abriu primeiro as mensagens, porque e-mail de manhã exigia uma versão dela que ainda não estava pronta. A produtora agradecia a presença, pedia os dados para pagamento, mandava uma foto da mesa e acrescentava, com excesso de exclamações, que “o público tinha amado”. Havia também uma mensagem de uma amiga, Júlia, enviada à uma e dezesseis: “Você sumiu com o fotógrafo ou cometeu homicídio contra o Ernesto?” Marina sorriu pelo nariz e respondeu só: “Ainda avaliando o que dá menos trabalho.”
Caio se mexeu atrás dela.
— Já está trabalhando? — ele perguntou, com a voz rouca.
— Estou tentando decidir se levanto ou se finjo morte clínica até o checkout — Marina respondeu, sem olhar para trás.
— Que horas são?
— Oito e quarenta.
Ele soltou um som baixo, desses que não chegam a virar palavra, e passou a mão pelo lençol até tocar a lateral da coxa dela. Marina deixou. A mão dele estava quente, pesada de sono, sem a precisão da noite anterior. Aquilo a atingiu de outro jeito. Caio acordado demais sabia esperar, calcular, responder. Caio recém-acordado tocava como se ainda não tivesse preparado defesa nenhuma. Marina olhou para a própria perna, para os dedos dele abrindo um pouco sobre sua pele, para a marca discreta da meia-calça ainda desenhada na cintura. Sentiu vontade de mandar que ele continuasse, e justamente por isso levantou.
— Café — ela disse, pegando a camisa dele do chão.
— Isso é minha camisa.
— Agora é uma toalha socialmente aceitável.
Marina vestiu a camisa preta sem abotoar tudo, entrou no banheiro e encarou o espelho. O cabelo estava ruim, a boca inchada, o pescoço tinha uma marca que exigiria gola ou indiferença. Ela lavou o rosto, escovou os dentes com força demais e abriu o e-mail do festival apoiando o celular na prateleira de vidro. O convite era maior do que ela esperava: três dias em Paraty, mesa de abertura sobre pornografia e autoria, mediação de uma conversa com duas autoras estrangeiras, entrevista gravada para um canal de cultura e uma sessão de leitura noturna chamada “Depois das Dez”. O cachê era decente. A exposição, enorme. O problema apareceu no PDF anexado, na terceira página, onde os nomes dos profissionais de imagem e cobertura estavam listados. Caio Albuquerque. Fotografia oficial.
Ela saiu do banheiro com a escova ainda na mão.
— Você vai para Paraty? — Marina perguntou, parada na porta.
Caio abriu um olho.
— Bom dia para você também.
— Paraty. Festival Corpo e Palavra. Você está na cobertura oficial.
Ele apoiou o corpo nos cotovelos, acordando de verdade aos poucos. O lençol escorregou até a cintura, e Marina odiou perceber que reparou.
— Recebi a confirmação anteontem — ele disse. — Achei que você soubesse.
— Eu recebi agora.
— Você vai?
Marina olhou para a tela do celular, depois para ele. A pergunta parecia simples demais para a quantidade de coisa que carregava. Paraty significava três dias de mesas, jornalistas, autores querendo ser fotografados com cara de importância, leitores de copo na mão fazendo perguntas em fila, editores medindo relevância pela proximidade da câmera. Significava também Caio com crachá, Caio nos bastidores, Caio vendo quando ela estivesse bem e quando estivesse exausta, Caio tendo acesso ao tipo de instante que ela preferia controlar.
— Vou — ela disse. — A mesa de abertura é minha.
— Então vamos nos ver lá.
— Essa frase é exatamente o tipo de coisa que me dá vontade de cancelar um contrato.
Caio sentou na cama, passou a mão pelo rosto e procurou a cueca com o pé. Demorou para achar. Marina acompanhou a cena com uma paciência cruel, encostada no batente, a camisa dele aberta o bastante para mostrar parte dos seios. Ele percebeu o olhar dela, depois percebeu que ela percebera que ele percebeu. O pau dele começou a endurecer debaixo do lençol com uma honestidade inconveniente. Marina ergueu uma sobrancelha.
— Você tem uma reunião com sua dignidade ou ela também vai para Paraty? — ela perguntou.
— Minha dignidade pediu baixa ontem, perto das duas da manhã — Caio disse, ainda sentado.
A resposta saiu melhor do que ela esperava. Marina entrou no quarto, pegou a calcinha do chão, examinou a peça como se avaliasse um documento comprometedor e a jogou dentro da bolsa. Depois foi até a mesa, abriu a garrafa de água nova que o hotel tinha deixado ali e bebeu metade. Caio levantou, nu, sem pressa fabricada, e entrou no banheiro. Marina ouviu a torneira, o barulho da escova, um pigarro. A domesticidade provisória do som deu nela uma irritação pequena. Não porque fosse ruim. Porque parecia fácil demais.
O serviço de quarto chegou às nove e vinte. Marina recebeu a bandeja com a camisa de Caio fechada só até a metade e uma expressão capaz de impedir qualquer comentário. O funcionário deixou café, pão, manteiga, mamão, ovos mexidos e uma nota fiscal dentro de uma pastinha de couro sintético. Caio saiu do banheiro com a toalha na cintura quando a porta fechou. Tinha o cabelo molhado e uma escova de dentes do hotel na mão.
— Você pediu para dois? — ele perguntou.
— Pedi para uma pessoa com fome e outra que talvez ainda seja útil.
Eles comeram na mesa pequena perto da janela. Marina passou manteiga no pão com movimentos curtos, abriu o mamão, separou as sementes com a colher. Caio tomou café sem açúcar e leu o PDF do festival no celular dela depois que ela empurrou o aparelho sobre a mesa. Ele não comentou de imediato, o que foi bom. Marina tinha pouca paciência para conclusões rápidas. Do lado de fora, São Paulo continuava trabalhando sem interesse no drama dos dois, e isso também era bom. Um homem lavava a fachada de um prédio em frente, preso por cordas, descendo centímetro por centímetro com um rodo. Marina ficou olhando para ele tempo demais.
— Tem uma coisa ruim aqui — Caio disse, depois de rolar a tela até o fim.
— Só uma?
— Ernesto está na mesa de crítica no segundo dia.
Marina fechou os olhos.
— Claro que está.
— “O obsceno domesticado: mercado, performance e autoria” — Caio leu.
— Eu devia cobrar aluguel de qualquer homem que usa minha obra para parecer corajoso.
Caio devolveu o celular. Marina abriu a programação e confirmou o nome. Ernesto Valadares. Crítico, ensaísta, professor convidado. A foto oficial dele era ainda pior do que a presença física: queixo apoiado na mão, estante ao fundo, camisa clara, olhar de quem já tinha perdoado a humanidade por não entendê-lo. Ela sentiu uma dor curta atrás dos olhos. Não era só vaidade ferida. Era o cansaço de saber exatamente como aquilo funcionaria. Ernesto falaria sobre ela sem dizer “Marina” tantas vezes, falaria do corpo feminino como território simbólico, usaria pornografia como palavra de laboratório e, no final, algum jornalista encontraria um jeito de perguntar a ela se a vida pessoal alimentava as cenas dos livros.
— Você está pensando em não ir? — Caio perguntou.
— Não. Estou pensando em ir muito bem vestida e destruir alguém com frases completas.
— Isso combina mais com você.
Marina olhou para ele por cima da xícara.
— Cuidado com a intimidade de quem acha que já sabe o que combina comigo.
Caio aceitou o corte sem fazer cara de ferido. Isso contou ponto, embora Marina não pretendesse informar. Ele pegou um pedaço de pão, mastigou devagar e olhou pela janela. O silêncio entre eles ficou comum por alguns segundos, cheio de faca, prato, café e trânsito. Marina preferia aquele silêncio ao tipo de conversa em que duas pessoas tentavam dar nome ao que ainda não tinha estrutura. Ela não queria falar “nós”. Não às nove e meia da manhã, não com a calcinha úmida dentro da bolsa e uma programação de festival aberta no celular.
— Eu não sabia que você estaria lá — Caio disse, enfim. — Quando aceitei, pensei no trabalho. Só isso.
— Eu acredito.
— Parece que não.
— Acreditar não me obriga a gostar.
Ele assentiu. Marina gostou de ele não tentar vencer a frase. Esse era um dos problemas de Caio: às vezes, a melhor parte dele aparecia justamente quando ele ficava quieto. Ela se levantou para pegar a própria roupa, e a camisa dele abriu mais no movimento. Caio olhou para o peito dela. Marina parou ao lado da cama.
— Você tem dez segundos para decidir se esse olhar é uma ideia ou um acidente — ela disse.
— É uma ideia.
— Então fala direito.
Caio levantou, deixou a toalha cair e foi até ela. Não tocou antes de chegar perto o bastante para que Marina sentisse o cheiro de sabonete barato do hotel na pele dele. A manhã tirava parte da teatralidade do desejo; tudo ficava mais exposto, menos favorecido pela luz, menos protegido pela noite. Ainda assim, quando ele colocou a mão na cintura dela e perguntou com os olhos antes de avançar, Marina abriu os botões restantes da camisa.
— Eu quero te chupar de novo — Caio disse, baixo. — Antes de a gente sair desse quarto.
Marina encostou as costas na parede, segurou o queixo dele e trouxe a boca dele para a sua. Beijou-o sem pressa dessa vez, mordendo menos, usando mais a língua, deixando que ele sentisse o café, a pasta de dente, a noite anterior ainda grudada nos dois de algum jeito. Depois empurrou os ombros dele para baixo. Caio ajoelhou. Marina abriu as pernas, e ele levantou a camisa até a cintura dela.
— Sem pressa de vitrine — ela disse. — Quero gozar antes do checkout, não posar para capa.
Caio riu contra a pele da coxa dela, e o riso virou língua logo depois. Ele passou a boca pela marca da meia-calça, pelo osso do quadril, pela parte interna da coxa, até chegar à buceta dela. Marina segurou o cabelo dele com uma mão e apoiou a outra na parede. A primeira lambida veio do jeito certo, sem hesitação, sem enfeite. Ela fechou os olhos, inclinou o quadril para a frente e deixou que a manhã se resumisse à boca dele trabalhando nela, ao barulho distante do carrinho de limpeza no corredor e à colher esquecida dentro da xícara. Caio chupava com atenção, alternando pressão e pausa, usando os dedos quando ela puxava seu cabelo, voltando ao clitóris quando ela prendia a respiração. Marina não falou muito. Disse “assim” duas vezes, disse “continua” uma, xingou quando ele acertou o ponto com a língua e os dedos juntos.
O orgasmo veio rápido, talvez porque o corpo dela ainda estivesse aceso da madrugada, talvez porque a manhã retirasse dela a vontade de prolongar qualquer coisa. Marina gozou segurando o cabelo dele, com os joelhos quase cedendo e a camisa aberta caindo pelos ombros. Caio a sustentou pela cintura até ela recuperar firmeza. Depois levantou, beijou a boca dela, e Marina sentiu o próprio gosto na língua dele. O pau dele estava duro contra a barriga dela. Ela desceu a mão, segurou, passou o polegar pela cabeça, apertou de leve.
— Eu não vou te dar tempo de gozar agora — ela disse.
— Crueldade.
— Organização.
Marina soltou o pau dele, pegou a própria roupa e foi se vestir no banheiro. Dessa vez fechou a porta. Precisava de alguns minutos sem o rosto dele por perto, porque o prazer recente amolecia o julgamento e ela não confiava em decisões tomadas com a pele ainda lembrando da boca de alguém. Vestiu a calcinha limpa, colocou a saia, ajeitou a blusa, prendeu o cabelo de um jeito que escondia metade da marca no pescoço. Quando voltou, Caio já estava de calça, camisa aberta e câmera guardada na mochila. A cama parecia um relatório mal escrito do que tinha acontecido.
— Eu vou descer primeiro — Marina disse.
— Para não parecer que a gente saiu junto?
— Para eu respirar antes de ver uma recepcionista olhando para minha cara como se soubesse demais.
— Ela provavelmente sabe.
— Por isso mesmo.
Caio colocou a camisa para dentro da calça. Marina pegou a bolsa e conferiu se não deixara nada. Achou um brinco debaixo da mesa, uma meia junto ao criado-mudo, o carregador conectado atrás da cortina. A cena de juntar os próprios restos sempre lhe parecia mais íntima do que o sexo. Sexo podia ser organizado pelo desejo. Recolher brinco do chão exigia admitir presença. Ela guardou tudo sem comentar.
Antes de abrir a porta, Caio chamou seu nome.
— Marina.
Ela virou.
— Eu não vou sumir.
A frase veio simples, sem pose. Isso a tornou mais perigosa. Marina segurou a maçaneta, olhou para ele, depois para a câmera dentro da mochila aberta. Pensou em Paraty, em Ernesto, na mesa de abertura, nas fotos que Caio faria dela sem pedir que ela se explicasse. Pensou também na facilidade com que promessas pequenas apodrecem quando encontram agenda, vaidade e medo.
— Então não faça disso uma frase bonita — ela disse. — Faça disso uma coisa verificável.
Ela saiu primeiro. No corredor, uma camareira empurrava o carrinho com lençóis limpos e miniaturas de xampu organizadas em fileiras. Marina caminhou até o elevador, apertou o botão e ficou olhando para o próprio reflexo na porta metálica. A marca no pescoço aparecia menos do que ela imaginara. O cabelo estava aceitável. A boca, nem tanto. Quando o elevador chegou, havia um casal idoso dentro, os dois usando crachás de um congresso médico. Marina entrou, sorriu por educação e desceu do décimo segundo ao térreo com a sensação de que a manhã tinha dentes pequenos.
No saguão, a recepcionista pediu a assinatura do consumo, informou que o carro chamado pelo aplicativo estava a quatro minutos e entregou um envelope esquecido pela organização do evento. Marina abriu ali mesmo. Dentro havia uma cópia impressa da foto oficial da mesa, provavelmente deixada pela produtora como gentileza. Na imagem, Marina aparecia ao microfone, Ernesto ao fundo na plateia, com o braço levantado para perguntar alguma coisa, e Caio fora do quadro, invisível e presente pelo ângulo escolhido. Ela olhou tempo demais para a foto. O enquadramento não favorecia Ernesto. Pelo contrário: deixava evidente a impaciência dela, a mão fechada perto do copo, a cabeça inclinada de alguém prestes a cortar uma fala longa. Caio tinha visto. Caio tinha escolhido aquele instante.
O celular vibrou antes que ela guardasse o envelope. Era mensagem dele: “Desço em cinco. E mandei para a produtora outras fotos da mesa. Nenhuma com Ernesto parecendo importante.” Marina leu duas vezes. Depois digitou: “Isso é quase um gesto político.” Ele respondeu rápido: “Estou aprendendo.”
Ela guardou o celular na bolsa, entrou no carro quando o motorista chamou seu nome e deu o endereço de casa. No caminho, abriu de novo o PDF do festival. Leu a programação inteira, marcou mentalmente os horários, os nomes úteis, os nomes irritantes, as possíveis armadilhas. Quando chegou à mesa de Ernesto, parou. “O obsceno domesticado.” Marina olhou pela janela para uma banca de jornal fechada, um cachorro-quente sendo montado às dez da manhã, um homem discutindo com uma maquininha de cartão. A vida tinha mais obsceno do que Ernesto conseguiria reconhecer mesmo com legenda.
Ela abriu uma nota no celular e escreveu a primeira frase para Paraty: “Pornografia é o nome que muita gente dá ao desejo quando perde o controle sobre quem está narrando.” Apagou “muita gente”. Escreveu “certos homens”. Sorriu. Deixou assim.
Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.
Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.
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