Universo da obra
Universo da obra
Marina acordou antes das oito, sem alarme, com uma dor baixa nos ombros e a sensação de que tinha dormido por partes. O quarto estava em ordem demais para alguém que passara três dias em Paraty, e isso denunciava a violência silenciosa da ansiedade: roupas dobradas sem carinho, folhas empilhadas por tema, canetas alinhadas perto do notebook, a mala aberta como uma boca pequena no canto. Ela tinha a mesa principal às onze. Não era mais a abertura, nem leitura noturna, nem entrevista de corredor. Era a conversa gravada do festival, a que a organização venderia depois como síntese: pornografia, autoria e crítica. Ernesto não estava oficialmente na mesa. Essa ausência era uma presença sofisticada. A programação o colocava como debatedor em outro horário, mas seu nome já circulava em todas as perguntas que tentariam fazer a ela.
O celular não tinha mensagem de Caio pela manhã. Havia a última da noite anterior: “Boa noite.” Abaixo dela, nada. Marina ficou olhando para a ausência com uma irritação que não queria admitir como espera. Ele estava no hotel. Ficara. Registrado. Isso deveria bastar para a parte adulta dela, e talvez bastasse. A outra parte, a que tinha passado meses aprendendo a ler lacuna como sumiço, ainda procurava prova de vida como quem procura ferrugem em metal novo. Ela largou o celular virado para baixo. Na escrivaninha, o texto da mesa tinha quatro páginas, duas delas quase ilegíveis de riscos. A primeira frase, escrita na madrugada, era: “Eu não vim defender pornografia; pornografia não está no banco dos réus.” Boa. Talvez limpa demais. Ela pegou a caneta e acrescentou abaixo: “Quem costuma pedir defesa é quem já decidiu condenar.”
Tomou banho sem música, lavou o cabelo, deixou a água quente bater na nuca até a pele ficar vermelha. Enquanto se vestia, escolheu uma roupa menos combativa do que as anteriores: calça escura, blusa de tecido cru, brincos pequenos, batom quase nenhum. Não queria oferecer à câmera um sinal fácil. Nem vermelho de guerra, nem preto de luto, nem decote que alguém pudesse usar como legenda de coerência ou contradição. A neutralidade também era uma roupa; ela sabia. Só que, naquela manhã, preferia uma superfície menos óbvia para o primeiro ataque. Colocou os papéis numa pasta, guardou o celular, pegou o crachá e desceu.
Caio estava na recepção, sentado numa poltrona perto da janela, sem câmera, sem mochila, com um copo de café na mão e uma camisa cinza que Marina ainda não tinha visto nele. Parecia mais velho sem a câmera, e isso não era ruim. Parecia alguém que tinha perdido uma blindagem e ainda decidira ficar no campo aberto. Quando a viu, levantou. Não veio até ela de imediato. Esperou que a distância fosse escolhida pelos dois.
— Bom dia — ele disse.
— Você está sem câmera.
— Estou fora da sua cobertura.
— E fora da cobertura do festival?
— Hoje cedo, sim. À tarde eu faço duas mesas sem você.
Marina assentiu. Havia uma delicadeza prática naquela informação. Ele dizia onde estaria, em que papel, com qual limite. Não pedia prêmio. Não pedia cama. Não pedia absolvição. Apenas ficava legível.
— Você dormiu? — ela perguntou.
— Um pouco.
— Péssima resposta.
— Café também está péssimo. A manhã tem coerência.
Marina quase sorriu. O quase ficou entre eles, menos agressivo do que antes. Caio apontou para o pátio.
— Quer caminhar até a tenda?
— Quero.
Foram pela rua de pedra ainda úmida, desviando de poças, cabos, carrinhos de entrega e gente com crachá pendurado como medalha provisória. Paraty, de manhã, parecia menos interessada em ser imagem. Funcionários lavavam fachadas, uma mulher varria folhas perto de uma livraria temporária, dois técnicos discutiam tomada, um autor famoso com cara de ressaca tentava comprar cigarro sem ser reconhecido. Marina gostava mais da cidade assim, antes de ser convertida em cenário. Caio caminhava ao lado dela sem tocar. Em outro dia, essa ausência de toque teria parecido recuo. Hoje parecia disciplina.
— Eu li a orientação interna — Marina disse.
— E?
— Está decente.
— Decente é um teto baixo, mas aceito.
— Você falou com Ernesto.
— Falei.
— Ele vai usar isso.
— Provavelmente.
— Você está arrependido?
Caio demorou a responder, não por cálculo, e sim porque parecia recusar uma frase fácil.
— Estou arrependido de ter demorado. Não de ter feito.
Marina olhou para a frente. Um grupo de estudantes atravessava a rua rindo, molhando a barra das calças. A resposta dele não curava nada, mas colocava o ferimento num lugar menos difuso.
— Eu também demoro — ela disse.
— Para quê?
— Para perceber quando estou usando controle como colete.
Caio não respondeu. Ótimo. Algumas frases não precisavam de carimbo. A tenda principal já estava cheia quando chegaram. Na entrada, Helena falava com dois produtores. Lucía fumava perto de uma árvore, apesar de toda placa do mundo. Paula Antunes estava com a câmera, mas, ao ver Marina, baixou o equipamento e fez um aceno breve, quase um pedido de paz sem teatro. Marina respondeu com o queixo. Ernesto não apareceu de imediato, o que significava que apareceria no momento mais conveniente.
A mesa tinha quatro cadeiras: Marina, Lucía, uma pesquisadora chamada Teresa e o mediador, um jornalista mais velho que parecia ter aprendido com os erros dos anteriores ou escondia melhor a fome por corte. Caio sentou na lateral da plateia, terceira fileira, sem câmera no colo. Marina viu. Viu também Ernesto entrar dez minutos depois, sozinho, escolher um lugar no fundo e se apoiar na parede. Fundo o bastante para não parecer parte da cena. Presente o bastante para tentar assombrá-la. Ela abriu a pasta, dobrou a primeira página para trás e decidiu que não leria tudo. Não queria soar como quem chegara com defesa pronta. Queria chegar com faca limpa e mão visível.
O mediador começou apresentando o tema com cuidado incomum. Disse que o festival tinha assistido a debates intensos nos últimos dias, que a circulação de imagens e cortes também fazia parte da discussão, que a mesa buscaria falar de autoria sem transformar autoras em prova involuntária. Marina olhou para Helena, do lado da tenda, e percebeu que aquela frase não nascera sozinha. Caio não olhou para ela. Melhor assim.
Teresa falou primeiro, com precisão acadêmica e pouca vaidade. Definiu pornografia como categoria móvel, historicamente usada tanto para regular corpos quanto para organizar mercados. Lucía falou depois, contando um caso de censura na Argentina e dizendo que a crítica às vezes se comportava como polícia com vocabulário melhor. O público riu. Marina anotou: “polícia com vocabulário melhor”. Quando chegou sua vez, o microfone veio com um ruído baixo. Ela ajustou a altura, olhou para a plateia e viu celulares se levantando. Alguns abaixaram quando uma produtora fez sinal de gravação oficial. Não todos. Nunca todos.
— Eu não vim defender pornografia — Marina disse. — Pornografia não está no banco dos réus. Quem costuma pedir defesa é quem já decidiu condenar.
Houve silêncio. Não o silêncio decorativo das frases que querem virar epígrafe. Um silêncio de trabalho, com ventilador, papel, tosse e uma garrafa caindo em algum lugar da terceira fileira.
— Quando uma mulher escreve “buceta”, “pau”, “boquete”, “gozar”, muita gente pergunta se aquilo era necessário. A pergunta parece estética, mas frequentemente é policial. Necessário para quem? Para a frase? Para a cena? Para o prazer da personagem? Para a tranquilidade do leitor? A palavra crua vira problema quando ela não pede permissão para existir. E, no caso das mulheres, quase toda palavra que atravessa o corpo sem pedir licença é tratada como excesso de personalidade.
Marina virou a página, mas continuou falando sem ler.
— Nestes dias, eu ouvi que o obsceno pode virar mercado. Pode. Tudo pode virar mercado. Tristeza vira mercado, trauma vira mercado, infância vira mercado, guerra vira mercado, Deus vira mercado, método de escrita vira mercado, silêncio vira mercado. A pergunta que me interessa não é se o desejo escrito por mulheres pode ser capturado. Pode. Já foi. Está sendo. A pergunta é por que a crítica parece tão ansiosa para apontar a captura quando a autora escreve sexo, e tão paciente quando outros temas rendem prestígio, bolsa, prêmio e capa dura.
Caio estava imóvel. Ernesto, no fundo, também. Marina não olhou diretamente para nenhum dos dois. Não queria que a fala virasse recado amoroso ou resposta ao crítico. Queria que passasse por eles e continuasse.
— Existe uma fome muito específica pelo corpo da autora erótica. Não o corpo literal apenas, embora esse seja sempre convocado por baixo da mesa. Falo do corpo como prova. A personagem quer chupar um pau, então perguntam se a autora chupou aquele pau. A personagem gosta de mandar, então perguntam se a autora é assim na cama. A personagem goza com raiva, então perguntam se a autora está confessando alguma coisa. A imaginação masculina costuma ser chamada de universo. A imaginação feminina, quando sexual, vira prontuário.
O aplauso veio antes de ela terminar a respiração. Marina esperou cessar, bebeu água e seguiu.
— Eu não tenho interesse em fingir que literatura erótica é sempre libertadora. Muita coisa ruim se escreve em nome de tesão. Muita repetição, muita violência disfarçada de intensidade, muita preguiça vendida como ousadia. Mas também não tenho interesse em aceitar que a crítica trate o desejo feminino como suspeito de nascença. Uma cena explícita pode ser pobre. Pode ser ótima. Pode ser só funcional. Pode ser vulgar e sofisticada ao mesmo tempo. O que ela não deve ser, automaticamente, é intimação para a autora subir ao tribunal com a calcinha na mão e explicar de onde tirou aquilo.
Dessa vez o riso veio alto, misturado a aplauso. Marina percebeu Teresa sorrindo. Lucía olhava para ela como quem segurava um fósforo aceso e aprovava o incêndio. O mediador baixou os olhos para o papel, talvez para esconder o próprio sorriso. No fundo, Ernesto mudou de posição.
— O direito de narrar o corpo não é só o direito de descrevê-lo bonito — Marina continuou. — É o direito de descrevê-lo ridículo, suado, vulgar, contraditório, com tesão fora de hora, com raiva, com fome, com vergonha, sem vergonha nenhuma. É o direito de dizer que uma mulher quer sentar na cara de alguém e, depois, quer discutir contrato, pegar ônibus, escrever e ir embora. O corpo não cancela a inteligência. A inteligência não higieniza o corpo. Quem exige que uma coisa peça desculpa pela outra está defendendo menos a literatura do que a própria dificuldade de ler mulheres inteiras.
Quando terminou, não houve estouro imediato. Primeiro veio um silêncio curto, quase atordoado. Depois o aplauso cresceu. Marina ficou sentada. Não levantou, não fez gesto de agradecimento amplo. Apenas bebeu água e deixou que o barulho passasse por ela sem virar pele nova. O mediador retomou com uma pergunta boa para Teresa, talvez por instinto de preservação, e a mesa ganhou densidade. Falou-se de algoritmo, de censura, de crítica, de plataformas, de capas com corpos sem rosto, de pseudônimos femininos escritos por homens, de leitoras que procuravam linguagem porque a vida lhes dera apenas eufemismo.
Na rodada de perguntas, veio o inevitável. Uma mulher jovem perguntou sobre exposição pública e imagem. Não perguntou de forma invasiva; perguntou tremendo um pouco, como quem tinha vivido algo parecido em menor escala.
— Como a autora protege a própria imagem sem se esconder? — ela perguntou.
Marina segurou o microfone com as duas mãos.
— Às vezes não protege — ela disse. — Às vezes aprende depois do dano. Às vezes negocia antes. Às vezes erra. Às vezes confia em gente que erra junto. A única resposta que eu tenho hoje é: autorização precisa continuar depois do primeiro sim. E quem olha precisa responder pelo que faz com o olhar. Fotógrafo, editor, crítico, leitor, amante. Todo mundo.
Caio baixou a cabeça. Marina viu pelo canto do olho e não se arrependeu de vê-lo ouvir. Era para ele também. Era para ela. Era para qualquer um que confundisse consentimento com saque bem documentado.
Outra pergunta veio de um homem mais velho, professor, que tentou formular uma discordância sobre o risco de “autoexposição como capital”. Marina deixou que ele terminasse. A pergunta era Ernesto com outro sotaque, mas menos maliciosa. Respondeu sem punir.
— O risco existe. Só que risco não é argumento para tutela. Se a mulher se expõe, perguntam se ela foi capturada. Se não se expõe, perguntam se é autêntica. Se usa pseudônimo, perguntam o que esconde. Se assina com nome, perguntam o que quer vender. Sempre há uma pergunta pronta para recolocar o comando fora dela. Talvez a crítica devesse, de vez em quando, examinar o próprio prazer de perguntar.
No fundo, Ernesto levantou a mão. A tenda percebeu antes do mediador. Marina sentiu o movimento como mudança de vento. O mediador hesitou, olhou para Helena, depois para Marina. Ela poderia negar, e talvez fosse sensato. Sorriu pouco e assentiu.
O microfone chegou a Ernesto.
— Marina, agradeço sua fala — ele começou, com aquela educação que já vinha cheia de pequenos móveis para esconder facas. — Acho que você coloca questões importantes. Minha pergunta é se, ao deslocar a crítica para o prazer de quem pergunta, não corremos o risco de impedir qualquer análise das formas pelas quais o mercado captura justamente essa reivindicação de inteireza.
Marina esperou um segundo. Depois outro.
— Ernesto, você fez uma pergunta ou pediu absolvição pública?
A tenda reagiu com um som que não era riso completo. Ernesto sorriu, mas o sorriso veio atrasado.
— Fiz uma pergunta crítica.
— Então eu respondo criticamente. Não, analisar o mercado não impede nada. Pelo contrário. Eu quero análise do mercado. Quero análise de plataforma, contrato, capa, algoritmo, fetiche de nicho, precificação do capítulo, tudo. O que eu recuso é análise que só encontra mercado quando uma mulher usa a palavra “buceta”. O que eu recuso é crítica que diz falar de estrutura, mas sempre acaba usando uma autora concreta como corpo de prova e depois se ofende quando esse corpo responde.
Ernesto levantou o microfone de novo, mas Marina continuou.
— E vou ser ainda mais clara, já que clareza economiza muito teatro: se você quer discutir minha obra, discuta trechos, cenas, escolhas, falhas, repetições, ritmo, linguagem. Se quer discutir minha presença pública, diga meu nome e assuma que está discutindo também imagem, recepção e desejo. Não me transforme em exemplo sem nome para depois fingir surpresa quando eu apareço dentro do exemplo.
O aplauso veio forte. Ernesto baixou o microfone. Pela primeira vez, não tentou recuperar o centro. Talvez soubesse que qualquer frase seguinte pareceria exatamente o que era: insistência. O mediador tomou a palavra com uma habilidade que Marina respeitou.
— Acho que temos aqui um ponto central para encerrar este bloco — ele disse. — Quem narra, quem enquadra e quem responde pelo enquadramento.
A mesa continuou por mais quinze minutos, mas o clímax já tinha acontecido. Marina sentiu isso não como vitória, e sim como esgotamento. Quando terminou, pessoas se aproximaram com livros, celulares, olhos brilhantes, relatos pessoais. Ela assinou, ouviu, recusou fotos quando estava cansada, aceitou algumas quando teve vontade, repetiu “obrigada” até a palavra perder textura. Caio ficou longe, fora da fila, perto da árvore onde Lucía fumava. Sem câmera. Apenas ali.
Helena apareceu depois de quase meia hora.
— A gravação oficial ficou ótima — disse. — Vamos publicar com a mesa inteira, sem corte curto antes.
— Obrigada.
— E a pergunta do Ernesto?
— Faz parte da mesa.
— Você quer que fique?
Marina olhou para o fundo da tenda, onde Ernesto conversava com Teresa, menos confortável do que de costume.
— Quero. Mas inteira. Pergunta e resposta. Sem teaser.
— Combinado.
A palavra combinado ainda lhe parecia frágil, mas melhor do que nada. Quando o público dispersou, Lucía se aproximou e entregou a ela um cigarro apagado como se fosse flor.
— Não fumo — Marina disse.
— Eu sei. É simbólico.
— Símbolo também dá câncer?
Lucía riu.
— Você fez o que precisava.
— Fiz o que consegui.
— Às vezes é o mesmo.
Caio esperou Lucía sair. Depois caminhou até Marina, parando a um passo. Havia muitas coisas que ele poderia dizer. Ela se preparou para rejeitar metade.
— Eu ouvi — ele disse.
— Era para ouvir.
— Eu sei.
— Inclusive a parte dos amantes.
— Principalmente.
Marina segurou a pasta contra o corpo. O cansaço começou a aparecer inteiro, sem adrenalina suficiente para mascarar. Caio olhou para as mãos dela, não para a boca, não para o peito, não para qualquer lugar que transformasse a fala recém-dita em prelúdio.
— Quer voltar sozinha? — ele perguntou.
— Quero andar.
— Comigo?
Ela olhou para a rua. Paraty estava clara, úmida, viva, irritante. Pessoas passavam com sacolas de livros, sandálias molhadas, vinho em copos plásticos. O festival ainda era uma máquina. Mas naquele momento a máquina parecia um pouco menos dona dela.
— Com você — Marina disse. — Sem câmera. Sem pegar na minha mão ainda.
— Certo.
Andaram até a beira d'água. Não havia conversa grande. Marina falou de Teresa, de Lucía, da gravação, de como a palavra “inteireza” começava a lhe dar enjoo se repetida mais de três vezes por pessoa. Caio falou pouco. Quando falou, era para responder, não para ocupar. A maré batia baixa, trazendo sujeira, folhas, espuma, restos pequenos que ninguém colocava em foto turística. Marina gostou disso. A água real era menos bem-comportada.
No fim do píer, ela parou.
— Eu não quero transar hoje para fechar arco — Marina disse.
Caio olhou para ela, quase sorrindo.
— Essa frase é muito sua.
— Infelizmente.
— Tudo bem.
— Também não quero que você durma na recepção como mártir de sofá.
— Foi uma poltrona ruim, não um martírio.
— Caio.
— Está bem.
Marina respirou, olhando para a água.
— Você pode subir mais tarde. Para dormir. Dormir mesmo. Se tentar transformar isso em cena, eu te expulso.
— Eu acredito.
— E se eu mudar de ideia sobre dormir, eu digo. Não fica interpretando respiração.
— Não interpreto.
— Mentira. Você é fotógrafo. Interpreta até cadeira vazia.
— Então não ajo sobre a interpretação.
Marina aceitou a correção com um movimento mínimo de cabeça. Ficaram ali alguns minutos, sem tocar. Depois ela foi a primeira a encostar o ombro no dele. Não a mão, não a boca, não o corpo inteiro. Só o ombro. Um contato quase sem erotismo, e por isso mesmo difícil. Caio não se moveu. A água continuou batendo nas pedras com sujeira e espuma. Do outro lado da cidade, alguém talvez já recortasse a mesa, escolhesse título, preparasse legenda. Ali, por enquanto, não havia imagem.
À noite, Caio subiu. Bateu uma vez, como ela pedira no dia anterior. Marina abriu de camiseta larga e cabelo preso, sem batom, com os papéis da mesa espalhados sobre a cama. Ele entrou sem mochila, sem câmera, com uma escova de dentes do hotel na mão e uma expressão quase ridícula de homem tentando não parecer feliz demais por ter permissão de dormir.
— Se você sorrir assim, eu retiro o convite — ela disse.
— Não estou sorrindo.
— Está por dentro. Pior.
Ele riu baixo. Marina apontou para o banheiro.
— Escova os dentes. Eu ainda estou brava com muita coisa, inclusive você em dias alternados.
— Entendido.
Dormiram sem sexo. Não por falta de desejo. O desejo estava ali, atravessando o colchão, aparecendo quando Caio tirou a camisa, quando Marina percebeu a linha das costas dele, quando ele deitou a uma distância respeitável demais e ela quase mandou que chegasse mais perto. Mandou depois, com irritação.
— Não precisa dormir na beirada como hóspede de convento.
Caio chegou mais perto. Marina virou de lado, de costas para ele, e puxou o braço dele sobre a própria cintura. O gesto repetia a manhã do hotel em São Paulo, mas não era o mesmo. Nada era. A mão dele ficou aberta sobre a barriga dela, sem subir, sem descer, sem pedir acesso. Marina cobriu a mão dele com a sua.
— Isso não resolve — ela disse, já de olhos fechados.
— Eu sei.
— Mas serve.
— Eu sei.
Dessa vez, a resposta não a irritou. Ou irritou pouco, o que, em Paraty, já era quase ternura.
Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.
Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.
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