Universo da obra
Universo da obra
Marina acordou com o celular vibrando contra a madeira da escrivaninha e uma claridade branca atravessando a cortina sem pedir licença. Caio não estava na cama. O lençol do lado dele tinha esfriado, o travesseiro guardava uma dobra no centro e a mochila da câmera já não estava perto da varanda. Ela levou alguns segundos para lembrar a ordem das coisas: a foto trocada, o sexo lento, a frase dele dizendo que ficava, a resposta dela dizendo que verificaria. A verificação começou antes do café, como quase tudo que presta para testar alguém: não havia bilhete, mas havia uma mensagem enviada às sete e doze. “Fui fotografar a saída dos convidados para o passeio de barco. Volto antes da sua entrevista. Café na recepção até dez. Levei a câmera, deixei seu carregador na mesa.” Marina leu a mensagem duas vezes, procurando o buraco. Não havia sumiço. Havia informação, horário, objeto lembrado. Aquilo deveria acalmá-la. Em vez disso, deu-lhe uma raiva pequena, como se Caio tivesse encontrado um modo irritante de não errar.
O carregador estava mesmo na mesa, enrolado com cuidado demais. Ao lado, um copo de água coberto por um guardanapo e a folha da programação dobrada na entrevista das dez e meia. Marina ficou olhando para aqueles objetos domésticos de quarto provisório com uma desconfiança quase cômica. O cuidado de Caio começava a aparecer em lugares inconvenientes: carregador, crachá desenrolado, foto não tirada, portal pressionado, café empurrado no prato. Não eram gestos de romance de vitrine, o que talvez os tornasse mais perigosos. Um buquê seria fácil de ridicularizar. Um carregador lembrado às sete da manhã, não. Ela levantou, vestiu a camisa branca do dia anterior, abriu a janela e viu a rua molhada, os telhados baixos, duas funcionárias do hotel conversando perto de um carrinho de roupa. Na calçada, um homem de chapéu fotografava uma porta azul como se descobrisse o Brasil pela primeira vez.
As mensagens de Júlia vieram em bloco. “A troca da foto ajudou.” Depois: “Mas o print da primeira já está rodando.” Depois: “Ernesto publicou stories com frase sobre mercado e performance. Não citou você, óbvio.” Depois: “Não morde isca antes da entrevista.” Marina abriu o perfil de Ernesto. Lá estava: foto da mesa inteira, tirada por alguém da organização, e por cima a frase: “O desafio da crítica é resistir à sedução do escândalo, inclusive quando o escândalo se oferece como método.” Abaixo, em menor tamanho: “Paraty, segundo dia.” Marina sentiu a garganta fechar. Ele não tinha dito seu nome porque não precisava. A elegância dos covardes estava em fazer a plateia completar a agressão.
Ela digitou para Júlia: “Vou arrancar a pele dele com citação correta.” Apagou. Escreveu: “Vi.” Júlia respondeu: “Bom. Agora escova os dentes.” Marina obedeceu por falta de argumento. No banheiro, enquanto a água corria, olhou para a própria cara e tentou escolher qual versão levaria à entrevista. A versão ferida seria devorada. A versão irônica renderia cortes. A versão didática faria Ernesto parecer necessário. A versão vulgar, se aparecesse cedo demais, viraria manchete antes do almoço. Ela lavou o rosto, passou corretivo nas olheiras e prendeu o cabelo sem paciência. A marca no pescoço finalmente tinha sumido, substituída por outra coisa menos visível: uma tensão na mandíbula que não sairia com maquiagem.
Na recepção, o café já estava no fim. Sobrou pão frio, mamão mole e uma jarra de café que parecia ter sido aquecida por ressentimento. Marina comeu porque Júlia, ausente, ainda mandava nela em certas áreas. Lucía apareceu de vestido azul, cabelo preso, cigarro apagado atrás da orelha, e sentou sem cerimônia.
— O homem publicou indireta — Lucía disse.
— Bom dia para você também.
— Bom dia. O homem publicou indireta.
— Vi.
— Você vai responder?
— Na entrevista, talvez.
Lucía partiu um pedaço de pão com os dedos e fez uma careta ao mastigar.
— Isso aqui é crime contra trigo.
— A organização chama de experiência colonial.
— Seu fotógrafo está na rua.
Marina levantou os olhos.
— Ele não é meu.
— Não foi o que eu disse ontem?
— E eu não aceitei ontem.
— Hoje aceita?
Marina bebeu café e se arrependeu imediatamente.
— Hoje eu aceito que ele deixou meu carregador na mesa.
Lucía sorriu como quem via um animal raro atravessando a estrada.
— Intimidade moderna.
— Não começa.
A entrevista das dez e meia foi gravada numa sala lateral da casa de cultura, com duas câmeras, um sofá duro, uma mesa baixa e uma planta que parecia viver contra recomendação médica. O entrevistador era jovem, bem preparado, e tinha a ansiedade de quem sabia que uma pergunta ruim poderia render mais audiência que uma boa. Marina percebeu o cálculo no primeiro minuto. Ele começou falando da mesa de abertura, passou pela pergunta de Renato, chegou à foto publicada e pousou em Ernesto como quem fingia inevitabilidade.
— Você acha que a repercussão confirma parte da crítica de Ernesto Valadares? — ele perguntou. — A ideia de que o obsceno, quando entra no circuito cultural, vira também performance de mercado?
Marina ajeitou o microfone preso à camisa. Do lado de fora da sala, alguém arrastou uma cadeira. Ela pensou em Caio na rua, em Júlia mandando escovar os dentes, em Ernesto escrevendo “escândalo se oferece como método” com a satisfação de quem lava as mãos numa bacia emprestada.
— A repercussão confirma que o mercado tem fome — Marina disse. — Isso não é novidade. A questão é que alguns críticos olham para a fome do mercado e decidem culpar a comida. Eu escrevo desejo. O portal transforma confronto em foto. Um perfil transforma foto em escândalo. Um homem transforma escândalo em prova da própria teoria. E, de repente, a autora vira culpada por todos os usos que fizeram dela.
O entrevistador inclinou a cabeça, interessado de verdade ou fingindo melhor que a média.
— Você se sentiu usada?
— Sim.
— Por quem?
Marina sorriu pouco.
— Hoje você veio trabalhar.
Ele riu, desconcertado. Ela continuou antes que ele organizasse defesa.
— Pela máquina inteira, em graus diferentes. Pela legenda, pelo corte, pela indireta sofisticada, pelo comentário vulgar, pelo elogio que só quer consumir a mulher “corajosa” enquanto ela está quente. O ponto é que uso não é sempre igual. Há quem veja, há quem publique, há quem edite, há quem compartilhe e há quem finja analisar enquanto alimenta o mesmo circuito que condena.
— Você inclui fotógrafos nessa crítica?
A pergunta veio com a suavidade de uma lâmina embalada em guardanapo. Marina sentiu o corpo reconhecer Caio antes que a cabeça respondesse. Não olhou para a câmera. Olhou para o entrevistador.
— Incluo qualquer pessoa que transforma alguém em material disponível sem responder pelo gesto.
— E quando há consentimento?
— Consentimento não é cheque em branco. Uma foto autorizada para contexto pode virar outra coisa numa legenda. Uma fala autorizada para uma mesa pode virar corte. Uma mulher pode consentir em ser vista e não consentir em ser reduzida. Parece simples quando não há interesse em complicar.
A entrevista durou trinta minutos. Marina saiu com a sensação de ter pisado em várias poças e evitado apenas as mais fundas. Do lado de fora, Caio estava no pátio, conversando com Paula Antunes. A fotógrafa ria de alguma coisa, câmera no ombro, colete preto, cabeça raspada brilhando sob a luz úmida. Caio não ria do mesmo jeito. Marina viu a cena e odiou o primeiro impulso de ciúme, porque ele era mesquinho, porque não cabia no argumento, porque chegava vestido de defesa ética e trazia por baixo uma vontade velha de posse. Paula tocou o braço de Caio ao se despedir. Um toque rápido, profissional talvez. Marina desviou o olhar tarde demais.
— Entrevista boa? — Caio perguntou, aproximando-se.
— Você viu?
— Vi parte pelo monitor.
— E?
— Você foi precisa.
— Precisa é elogio de quem não quer dizer ferida.
— Você foi ferida sem sangrar para eles.
Marina parou. A frase era boa demais, e naquela manhã ela não tinha espaço para frases boas vindas dele.
— Você estava falando com Paula.
— Estava.
— Sobre?
— A foto. O portal. O editor.
— Claro.
Caio percebeu o tom e guardou as mãos nos bolsos. A postura dele mudou quase nada, mas Marina já conhecia a diferença entre silêncio e recuo. Ele escolheu recuo.
— Ela não escolheu a capa da matéria — ele disse. — Mas mandou a foto sabendo que era a mais forte.
— Todos nós dormiremos melhores com essa gradação moral.
— Marina.
— O quê?
— Você está brava comigo ou com a cena?
— Que pergunta prática. Deve ficar ótima num workshop.
Ele olhou em volta. Havia gente no pátio, uma fila pequena para café, duas câmeras passando, um autor conhecido gravando stories perto da parede colorida. Caio baixou a voz.
— Quer sair daqui?
— Para onde? Para outro lugar em que alguém pode nos ver e transformar em argumento?
— Para um lugar sem gente do festival.
Marina quase aceitou. O corpo dela queria uma saída, um quarto, uma porta, uma superfície contra a qual pudesse empurrar Caio e deixar a raiva fazer o trabalho que as palavras já não faziam. Mas Júlia estava certa, e ela odiava isso. Havia perguntas que não podiam virar mordaça.
— Não — Marina disse. — Eu tenho mediação às duas.
— Posso te acompanhar até o hotel.
— Você pode trabalhar.
— Posso fazer os dois.
— Você adora essa frase.
— Porque às vezes é verdade.
— E às vezes é só um jeito elegante de não escolher.
Caio ficou quieto. Dessa vez, a frase acertou. Marina viu. Não sentiu a satisfação que esperava. Sentiu outra coisa, menor, mais feia.
A mediação das duas foi com duas autoras estrangeiras e transcorreu quase bem. Marina fez perguntas inteligentes, escutou respostas longas, traduziu uma piada para a plateia, evitou Ernesto, evitou Caio, evitou olhar para o celular. O público parecia interessado e menos faminto por sangue que o da manhã. Ainda assim, ao fim, três pessoas perguntaram sobre a polêmica da mesa anterior, como se todo assunto tivesse agora de passar pelo mesmo balcão. Marina respondeu com cortes curtos e devolveu o foco às convidadas. Lucía, na plateia, aprovou com um movimento mínimo de sobrancelha. Caio fotografou a mesa inteira, poucas vezes, sempre largo. Marina percebeu e fingiu não perceber.
No fim da tarde, a chuva caiu pesada. Paraty escureceu cedo, as pedras ficaram escorregadias e a organização transferiu uma roda informal para uma sala de serviço do hotel, nos fundos, porque a tenda lateral alagara. A sala era estreita, sem charme colonial, com caixas de água empilhadas, cadeiras dobráveis, uma mesa de fórmica e um ventilador que fazia barulho sem mover ar suficiente. Chamaram aquilo de encontro reservado entre autores e imprensa, o que significava que qualquer frase dita ali circularia com a proteção hipócrita do “off”. Marina foi porque a produtora insistiu, porque Lucía iria, porque Ernesto estaria e porque às vezes a pessoa comparece ao próprio desgaste para não deixar que outros escrevam a ata.
Caio chegou alguns minutos depois, molhado nos ombros, câmera guardada por causa da chuva. A ausência da câmera à vista mudou seu corpo. Parecia menos oficial, mais homem. Marina não decidiu se isso ajudava. Ernesto estava perto da mesa de fórmica, falando com o entrevistador da manhã e outro crítico. Quando viu Marina, sorriu como quem já esperava uma continuação.
— Sua entrevista circulou rápido — ele disse.
— Você mede velocidade de circulação como quem mede temperatura de febre alheia.
— Estou interessado no fenômeno.
— Claro. O fenômeno deve se sentir honrado.
O grupo riu pouco, com medo de escolher lado. Lucía acendeu um cigarro perto da janela aberta, apesar de uma placa pedindo para não fumar. A chuva batia forte no telhado de zinco, e aquilo dava à sala uma intimidade ruim, de gente presa junto por circunstância meteorológica e vaidade profissional. A conversa começou em torno de mercado digital, passou por plataformas e assinaturas, chegou à autoria feminina com a inevitabilidade cansativa de um ônibus atrasado.
— Marina tem razão em criticar a redução da autora à cena — Ernesto disse, olhando para o grupo, não para ela. — Mas me parece que há uma recusa em reconhecer o quanto a presença pública da autora participa ativamente da economia do texto. Quando a autora lê uma cena explícita, performa sua relação com o próprio vocabulário. Isso não é neutro.
Marina bebeu água num copo plástico. A sala inteira parecia esperar que ela mordesse.
— Nada é neutro, Ernesto. Nem você fingindo que está falando de mim na terceira pessoa enquanto eu estou a dois metros.
— Estou falando de um fenômeno mais amplo.
— Você sempre está, até quando acerta meu nome sem dizer.
Caio se mexeu perto da porta. Marina viu pelo canto do olho. Ernesto também viu. Foi rápido, mas viu. O sorriso dele mudou quase nada.
— Talvez o incômodo venha justamente da coincidência entre crítica e intimidade — Ernesto disse.
Lucía tirou o cigarro da boca.
— Que intimidade?
Ernesto levantou uma mão, como se pedisse calma a uma sala que ele mesmo inflamava.
— Digo intimidade entre autora e objeto. Entre discurso e exposição. Entre quem escreve o desejo e quem se beneficia de ser lida como encarnação desse desejo.
Marina sentiu o sangue subir. Não pelo conteúdo; pelo método. Ele sempre recuava um passo depois de empurrar, sempre deixava a palavra “talvez” e “fenômeno” segurarem a porta para ele.
— Você quer falar da minha obra, fala da minha obra — Marina disse. — Quer falar do meu corpo, tenha coragem de parecer vulgar sem pedir escolta teórica.
A sala ficou quieta. Caio olhou para ela. Ernesto também.
— Você insiste em levar para o corpo — Ernesto disse.
— Porque é para lá que você olha quando acha que está analisando.
O entrevistador da manhã tentou intervir, dizendo algo sobre “tensão produtiva”. Lucía riu alto. A chuva aumentou. O ventilador fez um estalo e continuou girando mal. Marina viu uma das pessoas da imprensa pegar o celular com a tela virada para baixo. Talvez gravando. Talvez não. A suspeita bastou.
— Eu não vou dar mais frase para sala de serviço — Marina disse, colocando o copo sobre a mesa. — Boa noite.
Saiu antes que alguém respondesse. O corredor dos fundos cheirava a produto de limpeza e roupa molhada. A chuva fazia uma parede cinza além da porta semiaberta para o pátio. Marina caminhou sem saber para onde, passou pela lavanderia do hotel, por um carrinho de toalhas, por uma porta com placa de funcionários. Caio a alcançou perto da escada de serviço.
— Marina.
— Não.
— Só me escuta.
— Não agora.
— Ele está tentando colar você a uma imagem. A foto, a leitura, eu, tudo.
Ela virou tão rápido que ele parou no degrau abaixo.
— Você percebeu isso agora?
— Não.
— Então por que parece sempre um segundo atrasado?
Caio respirou, molhado de chuva e corredor abafado, sem câmera para esconder a mão vazia.
— Porque eu acho que posso resolver com cuidado o que precisava de posição.
Marina sentiu a frase entrar. Desta vez, não era boa de um jeito irritante. Era boa porque doía nele antes de chegar nela. Ela olhou para o degrau, para a parede descascada, para a lâmpada fria acima dos dois. A escada de serviço não tinha nada do festival, nada da cidade bonita, nada das tendas. Era um lugar sem verniz, e isso tornava tudo pior.
— Você sabe qual é o problema? — ela perguntou. — Eu acredito em você.
Caio não respondeu.
— Acredito quando você diz que não escolheu a foto. Acredito quando você diz que tentou trocar. Acredito quando você abaixa a câmera. Acredito nessa sua porra de cuidado todo espalhado em carregador, crachá e enquadramento largo. E ainda assim eu me sinto usada pela cena inteira, e você está dentro dela.
— Eu sei.
— Não sabe. Você vê.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se a diferença tivesse batido com atraso.
— Talvez.
Marina desceu um degrau. Agora estavam quase na mesma altura. O corpo dele estava perto demais. A raiva dela reconheceu o caminho antigo, a possibilidade de agarrá-lo ali, empurrá-lo contra a parede, abrir a calça dele, obrigar o desejo a virar uma coisa simples e obediente. Ela quase fez. A mão chegou ao peito dele antes da decisão. Caio não se moveu.
— Se você me beijar agora, eu vou querer — ela disse.
— Então eu não beijo.
— Por quê?
— Porque você está tentando sair da sala com o corpo, não comigo.
Marina empurrou o peito dele com força moderada. Não para machucar. Para criar distância.
— Vai se foder, Caio.
— Talvez eu mereça.
— Não faz humildade comigo. Eu não estou em condições de respeitar.
Ele assentiu. A chuva batia atrás deles. Uma funcionária apareceu no alto da escada, viu os dois e recuou com um “desculpa” quase inaudível. Marina passou a mão pelo cabelo, riu sem humor e desceu mais dois degraus.
— Eu vou para o quarto.
— Quer que eu vá embora?
— Quero.
Ele recebeu a frase sem dramatizar. Isso a feriu mais um pouco.
— Está bem.
— E não me manda foto, contexto, link, print, nada. Hoje não.
— Está bem.
Marina subiu para o quarto pela escada principal, não pela de serviço, porque se recusava a sair da própria ruptura como funcionária de bastidor. No corredor do segundo andar, encontrou Paula Antunes com uma toalha no ombro e a câmera protegida por uma capa plástica. As duas se olharam. Paula pareceu querer dizer alguma coisa, talvez desculpa, talvez defesa, talvez só boa noite. Marina passou sem esperar. No quarto, trancou a porta, tirou a roupa molhada, vestiu uma camiseta larga e ficou sentada no chão do banheiro por dez minutos, sem chorar. Choro teria sido um alívio organizado. O que havia era uma exaustão áspera, com gosto de metal.
O celular vibrou várias vezes. Júlia. Lucía. A produtora. Um número desconhecido. Nenhuma mensagem de Caio. Ele obedecia. Claro que obedecia. A obediência dele, que no sexo a acendia, agora a deixava sozinha com a própria ordem. Marina abriu a conversa com ele mesmo sem mensagem nova. A última era “Trocaram.” Depois “Posso subir?” Depois nada. Ela digitou: “Eu não sei fazer isso.” Apagou. Digitou: “Você está dentro da cena.” Apagou. Digitou: “Hoje não.” Enviou.
A resposta veio depois de quatro minutos.
“Eu sei. Estou no hotel. Não subo.”
Marina jogou o celular sobre a cama e deitou sem apagar a luz. Do lado de fora, a chuva começou a diminuir. Em algum lugar do térreo, pessoas riam como se o festival ainda fosse apenas literatura, vinho e frases inteligentes. Ela pensou em Caio no quarto dele, ou na recepção, ou em qualquer lugar onde homens ficavam quando aceitavam uma ordem sem saber se aquilo era respeito ou desistência. Pensou em Ernesto satisfeito com a noite, alimentado por mais uma cena que poderia chamar de fenômeno. Pensou na foto, na legenda, na sala de serviço, no degrau entre ela e Caio.
Pela primeira vez desde o décimo segundo andar, Marina não quis que ele batesse à porta.
Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.
Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.
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