Universo da obra
Universo da obra
O último dia do festival começou com malas no corredor, ressaca leve nas mesas do café e aquela pressa triste de evento que já se desmonta enquanto ainda finge acontecer. Na recepção, duas caixas de livros esperavam transporte, a pilha de ecobags tinha diminuído para meia dúzia de exemplares amassados, e a produtora do rabo de cavalo discutia com alguém da van sobre horários, notas fiscais e uma autora que desaparecera com a chave do quarto. Marina desceu às nove e quinze, com a mala fechada, o cabelo preso de qualquer jeito e os papéis da mesa principal dobrados dentro do notebook. Tinha dormido com Caio ao lado e acordado antes dele, de novo, só que dessa vez o braço dele sobre a cintura não lhe pareceu uma pergunta. Pareceu uma coisa colocada ali durante a noite e deixada até que ela decidisse se queria mover.
Não moveu. Ficou alguns minutos olhando para a parede, sentindo a mão dele aberta sobre sua barriga, o calor do corpo dele atrás do seu, a respiração ainda funda. O desejo estava ali, mas não exigia uso imediato. Isso a surpreendeu mais que qualquer boquete em quarto de hotel. Desde Curitiba, desde o décimo segundo andar, desde a pousada de estrada e a sala trancada do casarão, o corpo entre eles tinha servido como tradução rápida, briga, resposta, teste, prêmio recusado, maneira de não dizer e de dizer demais. Naquela manhã, o corpo apenas estava. O pau dele semiacordado encostava na parte de trás da coxa dela, sem pedido. A mão não subia, não descia, não tomava. Marina quase riu da solenidade ridícula que podia existir numa ereção ignorada por respeito.
Caio acordou quando ela tirou o braço dele e sentou na cama. Não perguntou se ela estava bem. Talvez tivesse aprendido que a pergunta certa, em certas manhãs, era ficar quieto tempo suficiente para ela descobrir.
— Que horas? — ele perguntou, a voz ainda cheia de sono.
— Nove.
— Perdi o café?
— O café perdeu a chance de ser digno muito antes de você.
Ele esfregou o rosto com as mãos, olhou para o quarto e depois para ela. Marina estava de camiseta, sem calça, com uma marca de lençol na coxa e a expressão menos armada do que gostaria. Caio viu. Não comentou. Mais um ponto naquela contabilidade idiota que ela fingia não manter.
— Você vai embora hoje? — ele perguntou.
— A van sai ao meio-dia. Júlia quer me buscar em São Paulo para jantar e fazer autópsia verbal do festival.
— Ela parece eficiente com lâminas.
— É editora. Nasce com kit.
Caio sentou, apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou alguns segundos olhando para o chão. Sem câmera, sem camisa, com o cabelo ruim e a barba por fazer, parecia menos personagem do circuito e mais homem que talvez precisasse de café antes de qualquer redenção. Marina gostou disso. Não o suficiente para facilitar.
— E você? — ela perguntou.
— Tenho duas entregas de foto sem você, devolvo equipamento para a coordenação e volto de carro no fim da tarde.
— Sozinho?
— Sozinho.
Marina assentiu. A palavra produziu nela uma coisa pequena, quase ciúme do trajeto. Não queria ir com ele. Queria saber que poderia. Essas diferenças cansavam.
O checkout foi cheio de pequenas humilhações administrativas: conferência de consumo, assinatura em duas vias, uma discussão sobre a garrafa de água que ela não abrira, a chave antiga devolvida junto com o cartão magnético que nunca funcionara direito. Caio desceu depois, já vestido, carregando a própria mala e a mochila sem câmera aparente. Helena passou por eles na recepção, agradeceu a participação de Marina com uma formalidade melhorada pelo cansaço e disse que a gravação da mesa principal seria enviada para aprovação de legenda antes de qualquer corte. Marina agradeceu. Não sorriu demais. A confiança, quando voltava, devia voltar magra.
Ernesto apareceu perto da porta, claro. Seria decepcionante se não aparecesse. Estava com a mala pequena, livro debaixo do braço e um ar mais gasto do que nos dias anteriores. A camisa ainda era clara, mas amassara nas mangas. Marina reparou nisso com uma satisfação baixa. Havia alguma justiça em ver a roupa dele confessar corpo.
— Marina — ele disse, aproximando-se. — Boa viagem.
— Para você também, Ernesto.
— Sua mesa ontem foi forte.
— Obrigada.
Ele pareceu esperar outra coisa. Uma ironia, uma lâmina, uma última cena para guardar no bolso. Marina não deu. Essa recusa foi mais prazerosa do que responder.
— Espero que possamos continuar a discussão em outra ocasião — ele disse.
— Sobre a obra, talvez. Sobre mim como fenômeno, não.
Ernesto sorriu de leve.
— Você não facilita.
— Facilitar nunca foi meu gênero.
Dessa vez, ela saiu primeiro. Caio não se colocou ao lado dela como guarda, não respondeu por ela, não encarou Ernesto em busca de continuação masculina para uma briga que não lhe pertencia inteira. Apenas passou depois, cumprimentou com um aceno mínimo e foi deixar a mala perto do carro da equipe. Marina viu pelo vidro da recepção e registrou. Não como absolvição. Como gesto certo, no tamanho certo.
A van atrasou quarenta minutos. Claro. O último dia de festival sempre parecia acreditar que despedida melhorava com desconforto. Marina ficou no banco de pedra do lado de fora da pousada, com a mala entre os pés, respondendo mensagens atrasadas. Júlia mandava prints da repercussão da mesa principal, desta vez menos ruins. Uma página publicou um trecho inteiro, sem mutilar. Outra destacou a frase “autorização precisa continuar depois do primeiro sim” com crédito correto. Um perfil tentou transformar aquilo em indireta romântica, e Marina bloqueou antes que a estupidez se instalasse. Lucía mandou uma foto da água suja batendo nas pedras, com a legenda: “A beleza também carrega restos.” Marina escreveu: “Você virou brasileira no pior sentido.” Lucía respondeu com um áudio rindo.
Caio apareceu com dois cafés em copo de papel.
— Não é bom — ele disse, entregando um.
— Você está administrando expectativa agora?
— Estou tentando não mentir sobre bebida quente.
Marina aceitou. O café era ruim, mas estava quente, o que, em circunstâncias de van atrasada e ressaca moral, contava como atributo. Caio sentou no banco ao lado, mantendo um espaço educado entre eles. Nenhum dos dois falou por alguns minutos. A rua se movia em desmontagem: caminhonete carregando estrutura metálica, técnicos empilhando caixas, autores tirando fotos de despedida, leitores retardatários tentando comprar livro com desconto.
— Você vai escrever sobre isso? — Caio perguntou.
— Sobre o festival?
— Sobre tudo.
Marina bebeu café e olhou para uma poça onde o céu aparecia em pedaços.
— Já estou escrevendo. Não sei se vira livro, coluna, processo interno ou úlcera.
— Você vai me colocar?
— Você quer aparecer?
— Não sei.
— Resposta decente.
Caio apoiou o copo no joelho.
— Tenho medo de virar o fotógrafo que aprende ética porque comeu a autora certa.
Marina virou o rosto para ele. A frase não era bonita. Era feia do jeito que uma coisa honesta costuma ser antes de ser revisada.
— Você não aprendeu ética comigo — ela disse. — Você já tinha. Só confundia com cuidado privado.
— Isso é defesa?
— É diagnóstico. Não se acostuma.
Ele assentiu. O silêncio voltou, menos tenso.
— E você? — ele perguntou.
— Eu o quê?
— Tem medo de virar o quê?
Marina pensou em responder rápido, mas a pergunta merecia um pouco mais de respeito do que sua primeira ironia. Olhou para a mala, para o crachá já guardado, para a própria mão em volta do café.
— Tenho medo de chamar autonomia de controle só para não admitir que alguém chegou perto — ela disse. — Tenho medo de transformar todo depois em prova, até ninguém mais aguentar ser examinado.
Caio ficou quieto. Dessa vez, a quietude dele não parecia estratégia. Parecia trabalho.
— Eu aguento algumas provas — ele disse.
— Algumas.
— Algumas.
— E eu preciso parar antes de virar tortura.
— Isso também.
Marina soltou uma risada pequena, cansada. O motorista da van apareceu enfim, gritando nomes de autores como se chamasse lista escolar. Ainda faltavam dez minutos de confusão. Pessoas começaram a juntar malas, abraços, promessas de envio de texto, convites vagos para mesas futuras. Marina não levantou de imediato.
— Eu não quero romance com trilha sonora — ela disse.
— Ótimo. Meu carro tem um problema no alto-falante direito.
— Caio.
— Desculpa. Continua.
— Não quero você entrando na minha vida como reparação do dano que ajudou a perceber. Não quero virar sua chance de ser melhor. Não quero ser musa, pauta, penitência, nem fotografia que você aprendeu a não tirar.
— Está bem.
— Também não quero fingir que isso foi só sexo de festival.
Ele olhou para ela. Havia alívio no rosto dele, mas segurado, sem comemoração burra.
— Eu também não.
— Então a gente começa pelo quê?
Caio respirou, olhou para a rua, depois para ela.
— Pelo verificável.
Marina fechou os olhos por um instante.
— Você está viciado nessa palavra.
— Ela tem utilidade.
— Tem.
— Eu volto para São Paulo hoje. Amanhã não mando mensagem dramática. Mando horário de café, se você quiser. Você pode dizer não. Depois, se disser sim, eu apareço. Sem câmera.
— Café é muito pouco erótico.
— Depois do café eu posso ser vulgar, com autorização renovada.
Marina riu de verdade. Não alto, não solto demais, mas o suficiente para sentir alguma coisa desarmar no peito.
— Melhor.
O motorista chamou seu nome. Marina levantou, puxou a mala e ficou diante de Caio. A despedida prática seria um aceno. A romântica, um beijo com gosto de promessa. Nenhuma servia. Ela colocou a mão no rosto dele, tocou a barba com o polegar e beijou-o uma vez, curto, na boca. Sem língua, sem cena, sem concessão para quem pudesse olhar. Um beijo que não explicava nada e também não escondia.
— Amanhã você manda o horário — ela disse.
— Mando.
— Se vier com frase bonita, eu bloqueio.
— Horário, endereço, café.
— E talvez pão.
— Pão verificável.
— Vai se foder.
— Com autorização renovada, talvez.
Marina entrou na van rindo apesar de si mesma. Sentou perto da janela, colocou a mala pequena aos pés e viu Caio ficar na calçada com o copo de café na mão. Ele não levantou o celular. Não fotografou a van saindo, nem ela pela janela, nem o adeus. Apenas ficou. Quando o veículo dobrou a esquina, Marina viu a imagem dele desaparecer sem virar registro. Aquilo doeu de um jeito bom, o que a deixou desconfiada e, por alguns quilômetros, quieta.
A viagem de volta foi longa e cheia de conversas quebradas. Uma autora dormiu com a cabeça encostada no vidro. Um editor falou ao telefone sobre direitos digitais. Alguém comeu biscoito de polvilho com uma persistência criminosa. Marina abriu o notebook no colo, mas não escreveu de imediato. Ficou olhando para o cursor numa página em branco. O título provisório apareceu antes do texto: “Depois”. Ela achou simples demais. Manteve. Escreveu a primeira linha: “O problema nunca foi o quarto.” Apagou. Escreveu: “O primeiro erro foi achar que desejo resolvia presença.” Apagou também. Por fim, escreveu: “Na manhã em que fui embora de Paraty, ninguém me fotografou pela janela da van.” Essa ficou.
Júlia a buscou em São Paulo no começo da noite, com cabelo preso, batom vermelho e uma sacola de comida japonesa no banco de trás. Abraçou Marina sem perguntar nada nos primeiros cinco segundos, o que era uma forma rara de misericórdia.
— Você está inteira? — Júlia perguntou, entrando no carro.
— Com emendas.
— Emendas contam.
— Ele ficou.
— Eu imaginei.
— Não do jeito fácil.
— Melhor.
Marina olhou para ela.
— Você vai ser insuportável no jantar?
— Profissionalmente.
— Ótimo. Senti falta.
Em casa, depois de comer pouco, falar muito e ouvir Júlia desmontar Ernesto, a matéria, o festival, Caio e a própria Marina com a precisão de quem separa ossos de peixe, Marina tomou banho e deitou sem sono. O apartamento parecia outro depois de Paraty, embora fosse a mesma bagunça: livros no sofá, xícara velha esquecida, provas de revisão, uma blusa pendurada na cadeira. Havia uma vida ali que não precisava de crachá. O celular estava sobre o criado-mudo. Às vinte e três e quarenta, Caio mandou mensagem.
“Cheguei. Amanhã, 10h30, padaria da sua rua. Café, pão e nenhuma frase bonita.”
Marina leu e não respondeu na hora. Levantou, foi até a cozinha beber água, olhou a pia, apagou a luz da sala, voltou. A mensagem continuava simples. Horário, lugar, café, pão. Nada de “pensei em você”, nada de “precisamos conversar”, nada de “senti sua falta” escorrendo pela tela antes de merecer existência. Ela digitou: “10h30. Não se atrase.” Enviou. Depois acrescentou: “E compra o pão antes que acabe.” Ele respondeu: “Verificável.”
Marina largou o celular e riu sozinha no escuro.
Na manhã seguinte, ele estava na padaria às dez e vinte e seis, sentado numa mesa perto da parede, sem câmera, com dois cafés, pão na chapa e uma garrafa de água. Marina viu pela janela antes de entrar. Ele não a viu de imediato. Estava olhando para a rua, mãos em volta do copo, rosto ainda cansado, presente de um jeito sem fotografia. Ela ficou parada do lado de fora por alguns segundos, só para observar sem ser observada. Talvez isso fosse injusto. Talvez fosse humano. Entrou.
— Você chegou cedo — ela disse.
— O pão podia acabar.
— Boa resposta.
O café foi estranho, comum, cheio de ruídos pequenos: talher batendo, atendente chamando pedido, televisão baixa no canto, cheiro de manteiga, gente passando pela calçada. Falaram de coisas que não resolviam nada e por isso importavam. Júlia. A edição do texto da mesa. A entrega das fotos. A possibilidade de Marina transformar Paraty em ensaio. A suspensão de Caio na cobertura de eventos com ela por um tempo. O preço absurdo de um suco. O pão que, apesar de verificável, estava meio queimado.
Quando saíram, ainda era cedo. Marina não convidou Caio para subir. Ele também não pediu. Caminharam até a porta do prédio dela e pararam ali, na calçada, ao lado de um vaso rachado e uma pilha de panfletos de delivery enfiada na grade.
— Eu quero subir — Caio disse.
— Eu sei.
— Não estou pedindo.
— Está informando desejo?
— Estou aprendendo formatos.
Marina se aproximou. A rua estava cheia demais para cena, vazia demais para esconderijo. Ela beijou-o devagar, agora com língua, com vontade reconhecida, sem pressa de resolver. O corpo respondeu rápido, como sempre. O dela, o dele. A diferença era que nenhum dos dois fingiu que isso decidia tudo.
— Hoje não — ela disse, afastando a boca.
— Está bem.
— Sexta talvez.
— Café ou vulgaridade?
— Os dois, se você se comportar mal do jeito certo.
Caio sorriu.
— Autorização renovável?
— Sempre.
Marina subiu sozinha. No elevador, encostou a cabeça no espelho manchado e fechou os olhos. Pensou no décimo segundo andar, na livraria, no farelo de bolo, na sala de serviço, na mesa principal, na van sem foto, no pão meio queimado. Pensou em Caio ficando na calçada sem transformar aquilo em cena. Pensou em si mesma, ainda desconfiada, ainda mandona, ainda com medo, ainda querendo. O depois não tinha virado promessa grande. Tinha virado uma sequência de coisas pequenas que poderiam ser conferidas: mensagem, horário, café, ausência de câmera, porta não forçada, desejo dito sem cobrança.
No apartamento, abriu o notebook e voltou ao arquivo. A primeira frase continuava lá: “Na manhã em que fui embora de Paraty, ninguém me fotografou pela janela da van.” Marina leu em voz alta. Parecia começo de outra coisa. Talvez coluna. Talvez capítulo. Talvez apenas registro de uma mulher que, por uma vez, saíra de cena sem virar imagem.
Ela escreveu a segunda frase:
“Ainda assim, alguém ficou.”
Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.
Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.
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