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Depois do Décimo Segundo

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Depois do Décimo Segundo

Capítulo 3 · Depois do Décimo Segundo

A Mala e a Frase

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Marina chegou em casa pouco antes do meio-dia e encontrou o apartamento com o tipo de desordem que só ela mesma conseguia produzir e ainda assim julgar. Havia uma xícara com café velho na mesa, três livros abertos no sofá, um casaco jogado sobre a cadeira da sala e uma pilha de provas de revisão presa por um copo, porque o vento da janela já tinha derrubado tudo uma vez na semana anterior. Ela deixou a bolsa no chão, tirou os sapatos no meio do caminho e foi direto até a cozinha beber água da torneira, sem copo, inclinada sobre a pia como se tivesse voltado de uma viagem maior do que uma noite de hotel a doze minutos dali. O celular vibrou dentro da bolsa antes que ela engolisse direito. Marina fechou a torneira com o punho, pegou o aparelho e viu uma mensagem de Júlia: “Você está viva ou devo mandar flores para a livraria?”

Marina encostou o quadril na pia e digitou com o polegar ainda úmido: “Viva. Ofendida. Desidratada. Com café de hotel no sangue.” A resposta veio quase imediata: “Então transou.” Marina olhou para a tela por alguns segundos, sem sorrir de primeira. Júlia tinha esse talento irritante de chegar ao centro da coisa com sapato sujo. Era editora, amiga desde o primeiro livro e uma das poucas pessoas autorizadas a falar com Marina sem rodeio, talvez porque também soubesse quando calar a boca. Tinha acompanhado Curitiba pelo avesso: não a cena, não os detalhes, mas o depois, as mensagens que Marina fingia não esperar, o nome de Caio aparecendo em posts de eventos, as fotos dele publicadas em revistas pequenas, a raiva inútil que Marina chamava de preguiça de homem inconsistente. Júlia nunca comprara o eufemismo. Marina respondeu: “Transar não é crime.” Júlia devolveu: “Depende do texto da denúncia.”

Marina largou o celular sobre a bancada e foi até o banheiro. A marca no pescoço aparecia mais sob a luz de casa. O espelho do hotel tinha sido misericordioso ou mal iluminado. Ela virou o rosto, puxou o cabelo para o lado, tocou a pele com dois dedos e sentiu a região levemente sensível. Lembrou da boca de Caio ali, depois da mão dele segurando sua coxa contra a parede, depois da voz dele dizendo que não ia sumir. A lembrança a irritou menos do que deveria. Marina abriu a gaveta, pegou um corretivo, passou uma camada mínima e desistiu. Havia marcas que ficavam piores quando alguém tentava convencer o mundo de que não existiam.

Ela tomou banho de novo, dessa vez no próprio banheiro, com xampu conhecido, toalha áspera e o barulho do vizinho de cima arrastando móveis como se reorganizasse a vida todos os dias. Quando saiu, enrolada na toalha, encontrou quatro mensagens de Júlia, uma da produtora da livraria e três de Caio. Começou pela produtora, por disciplina e covardia. Dados de pagamento, recibo, agradecimento, convite para repostar fotos oficiais. Marina respondeu o essencial, anexou as informações bancárias e abriu a conversa com Caio só depois de secar o cabelo com a toalha por tempo demais. As mensagens dele estavam empilhadas sem ansiedade aparente: “Cheguei em casa.” Depois: “Você esqueceu um prendedor de cabelo no banheiro.” E então: “E uma frase no elevador.”

Marina respondeu: “Não vou usar nenhuma das duas sem autorização.” Só percebeu que tinha invertido o sujeito depois de enviar. O celular ficou quieto por quase um minuto. Caio escreveu: “Você está me dando uma frase minha como se fosse sua ou isso foi uma ressaca sintática?” Marina riu sozinha, irritada por rir, e digitou: “Estou cansada. Você entendeu.” Ele respondeu: “Entendi. Também não vou usar nada sem autorização.” O problema de Caio era esse: quando queria, acertava a mão numa frase simples e tornava mais difícil descartá-lo. Ela sentou na beirada da cama, ainda de toalha, e viu que ele tinha enviado uma pasta com fotos da noite anterior. Não eram muitas. Doze imagens, todas em preto e branco, sem a pressa promocional das fotos de divulgação.

Marina abriu a primeira já preparada para se irritar. Era ela à mesa, olhando para alguém fora do quadro, com a caneta entre os dedos e um copo plástico amassado perto do microfone. A segunda mostrava Ernesto de costas, braço levantado, a cabeça dela um pouco inclinada para o lado, o rosto de quem tinha acabado de ouvir uma palavra ruim sendo usada com confiança. A terceira era pior: Marina rindo com a produtora, uma mão na cintura, o vestido ligeiramente marcado pela postura cansada, o rosto fora da pose de autora. Não havia nada de sexual. Mesmo assim, ela sentiu um incômodo baixo, quase ciúme de si mesma.

A quarta foto a prendeu. Ela aparecia sentada sozinha depois do fim do evento, o auditório quase vazio, os copos, a caneta sem tampa, as cadeiras desalinhadas, o prato com farelos. A imagem tinha um cansaço sem piedade e sem humilhação. Marina não estava bonita no sentido útil da palavra. Estava presente. Os ombros tinham descido um pouco, a boca estava fechada, a mão direita segurava a tampa da caneta como se aquele objeto mínimo impedisse alguma coisa de escapar. Ela aproximou a tela do rosto, irritada por gostar. Caio tinha visto o que ela tentava esconder, só que não tinha transformado aquilo em troféu. Essa diferença importava, e Marina não gostava de quando diferenças importavam.

Júlia ligou antes que ela decidisse responder.

— Não me diga que você está olhando foto dele e fazendo cara de juíza — Júlia disse, sem cumprimentar.

— Eu atendi há dois segundos — Marina respondeu, indo até o armário.

— Você respira diferente quando está prestes a absolver homem bonito.

— Desligar também é uma forma de autocuidado.

— Ele dormiu aí?

— No hotel.

— Isso é um sim com nota fiscal.

Marina abriu a gaveta de camisetas, tirou uma branca, achou uma mancha perto da gola, jogou de volta e pegou outra. Júlia ficou quieta por tempo suficiente para Marina saber que vinha pergunta séria. O apartamento parecia mais claro agora, e a claridade lhe dava uma sensação de exposição semelhante à das fotos. Ela colocou a camiseta, passou o telefone para o viva-voz e começou a juntar roupas para lavar.

— Ele ficou até de manhã? — Júlia perguntou.

— Ficou.

— Por vontade própria ou sob ameaça?

— As duas coisas podem coexistir.

— E você?

Marina parou com uma meia na mão.

— Eu o quê?

— Você queria que ele ficasse?

Marina odiava perguntas pequenas demais. Eram as piores, porque não ofereciam uma cortina de fumaça. Jogou a meia no cesto, pegou outra do chão e ficou olhando para a porta aberta do armário. Pensou em responder com piada, em falar de sexo, em dizer que Caio chupava bem e que isso devia bastar como argumento por algumas horas. Júlia esperou. Esse era o defeito mais útil dela.

— Queria — Marina disse, por fim. — O que não significa grande coisa.

— Significa pelo menos isso.

— Você sempre foi ótima em transformar migalha em tese.

— E você em chamar pão de acidente para não admitir fome.

Marina fechou o armário com força moderada. A frase era boa, e isso a irritou mais do que uma frase ruim. Ela levou o celular para a sala, afastou os livros do sofá e sentou no espaço que sobrou. A tela ainda mostrava a pasta de fotos enviada por Caio. Abriu a quinta imagem enquanto Júlia falava alguma coisa sobre o festival. Nessa, Marina aparecia passando por Caio perto da saída da livraria, o rosto parcialmente virado, a boca no meio da frase que só ele tinha ouvido. A foto devia ter sido feita por alguém da produção, ou por disparo remoto, ou por puro azar de câmera apoiada. Não importava. Era a frase do décimo segundo andar transformada em imagem. Marina sentiu um calor curto no estômago.

— Você recebeu a programação de Paraty? — Marina perguntou.

— Recebi. Você vai abrir a mesa mais perigosa do evento e Ernesto vai tentar fazer cosplay de pensamento crítico no dia seguinte.

— Caio também vai.

— Como fotógrafo?

— Oficial.

Júlia soltou um assobio baixo.

— Isso foi combinado por vocês?

— Eu sou muitas coisas, Júlia, mas ainda não organizo festival para transar com fotógrafo sob luz colonial.

— Pena. Seria uma curadoria honesta.

Marina riu, e o riso saiu antes que ela conseguisse torná-lo amargo. Levantou para pegar o notebook na mesa de trabalho. A tela estava aberta em um arquivo chamado “PARATY_FALA_FINAL_v3_AGORA_VAI.docx”, que era mentira desde o nome. Havia três páginas de anotações, duas citações que ela provavelmente cortaria, um parágrafo inteiro escrito com raiva e uma frase isolada do carro: “Pornografia é o nome que certos homens dão ao desejo quando perdem o controle sobre quem está narrando.” Ela leu em voz alta para Júlia.

— Boa — Júlia disse. — Ainda está com cara de frase de abertura, mas é boa.

— Isso é elogio ou cuspe?

— É edição. A frase sabe onde quer bater, só está com sapato limpo demais.

Marina colocou o celular sobre a mesa, abriu uma nova página e começou a digitar variações. Cortou “pornografia” no início, recolocou. Cortou “certos homens”, escreveu “homens educados demais”, apagou. Escreveu: “Quando uma mulher descreve a própria fome, sempre aparece alguém querendo chamar aquilo de sintoma, mercado ou excesso.” Ficou melhor. Menos cartaz, mais faca. Ela deixou a frase ali, sem decidir se sobreviveria até Paraty.

— O que você quer fazer com Caio lá? — Júlia perguntou.

— Evitar assassinato profissional, sexo em local com câmera de segurança e qualquer conversa sobre futuro antes do segundo café.

— Plano frágil.

— Planos frágeis combinam com eventos literários.

— Marina.

Ela parou de digitar.

— Eu não sei — Marina disse. — Ele mandou fotos boas. Boas de um jeito que me incomoda. Não me embelezam, não me protegem demais. Parece que ele presta atenção sem pedir parabéns por isso.

— E isso te dá medo?

— Isso me dá trabalho.

Júlia não respondeu de imediato. Marina aproveitou para abrir a sexta foto. Era Ernesto, agora de perfil, falando com ela após a mesa. A imagem capturava a mão dele no ar, dois dedos erguidos, a boca aberta no meio de uma explicação. Marina aparecia sentada, olhando para a caneta. A foto era cruel sem distorcer nada. Bastava o real, quando enquadrado com precisão. Ela pensou em Caio escolhendo enviá-la ou não, pesando limite, piada, utilidade, intimidade. Pensou que talvez ele tivesse mandado justamente para lhe oferecer uma prova de que vira a violência pequena daquela conversa. O gesto lhe pareceu bonito. A palavra bonito, aplicada a Caio, causou um estrago imediato em sua disposição.

— Eu preciso escrever — Marina disse.

— Precisa mesmo. E precisa comer alguma coisa que não seja café e ressentimento.

— O ressentimento tem fibra.

— Tem acidez. Depois me manda o texto.

— Mando.

— E Marina?

— O quê?

— Não transforma o festival inteiro em tribunal para ver se ele passa.

Marina olhou para a foto de Ernesto, depois para a frase no documento, depois para a marca fraca ainda visível no pescoço pelo reflexo escuro da tela.

— Júlia, meu amor, eu sou escritora. Transformar coisas em tribunal é metade do ofício.

Depois que desligou, Marina passou quase duas horas no texto. Escreveu em blocos longos, cortou as partes que pareciam inteligentes demais para serem verdadeiras, puxou exemplos do próprio livro, de cartas de leitoras, de perguntas recebidas em eventos, de homens que diziam corajoso quando queriam dizer excitante, mas não quero admitir. Anotou uma lembrança da mãe encontrando um manuscrito antigo e perguntando por que ela precisava escrever essas coisas, como se o desejo fosse uma infiltração na parede de uma casa decente. Cortou a mãe depois, porque ainda não queria abrir aquela porta em público. Acrescentou Ernesto sem nomeá-lo, descrevendo o tipo de crítico que coloca luvas brancas antes de tocar no que chama de obsceno. Essa imagem ela quase cortou por parecer arrumada demais. Manteve por enquanto, com um asterisco de desconfiança.

No meio da tarde, Caio mandou outra mensagem: “Posso te mostrar uma foto que não enviei para a produção?” Marina ficou olhando para a pergunta. O cuidado formal a agradou e a incomodou ao mesmo tempo. Ela digitou “pode”, apagou, levantou para fazer café, percebeu que estava usando o café como adiamento e voltou. Escreveu: “Pode.” A foto chegou sem legenda. Marina abriu. Não era da mesa, nem de Ernesto, nem da saída. Era do corredor lateral da livraria, provavelmente feita depois que ela passou por ele. Marina aparecia de costas, caminhando para a porta, a bolsa no ombro, o vestido preto marcando o corpo sem intenção de convite, uma das mãos levantada para prender o cabelo. Havia um borrão de luz na vitrine e, no canto inferior, a sombra de Caio na parede. A imagem era tecnicamente imperfeita. Talvez por isso funcionasse. Não vendia Marina como autora, musa, personagem ou escândalo. Mostrava uma mulher indo embora antes de perder a paciência. E ainda assim, para ela, havia algo íntimo demais naquela nuca exposta, naquele gesto de prender o cabelo, naquela sombra dele sem corpo junto dela.

Marina escreveu: “Por que não mandou?” Ele respondeu: “Porque essa é sua.” Ela largou o celular na mesa como se ele tivesse esquentado. Andou até a janela, abriu mais a cortina, olhou para a rua. Um entregador discutia com o porteiro do prédio da frente. Uma criança de uniforme escolar puxava a mochila da mãe. Um homem com pasta atravessou fora da faixa e quase foi atingido por uma moto. A cidade não tinha nenhum respeito pelo momento interno dela, o que era útil. Marina voltou ao celular. “Você tem autorização para guardar?”, escreveu. Caio respondeu: “Tenho se você der. Apago se quiser.” Ela demorou. Não queria responder por vaidade, nem por desejo, nem por medo. Queria descobrir o que de fato a incomodava. A foto não era indecente. Não a expunha sexualmente. A ameaça estava em outro lugar: Caio tinha guardado um instante que ela não sabia que estava oferecendo. Fotografia fazia isso. Desejo também. E talvez a parte mais perigosa fosse ela querer que ele guardasse. “Guarda”, escreveu. “Mas não publica.” Ele respondeu: “Combinado.”

Marina colocou o celular virado para baixo e retomou o texto com uma energia diferente, quase raivosa. Escreveu um parágrafo sobre a diferença entre ser vista e ser tomada como material disponível. Escreveu que nem toda imagem roubava, nem todo olhar possuía, mas todo olhar precisava responder pelo que fazia com aquilo que recebia. Essa frase ficou perto demais da tese, e ela a marcou em amarelo para cirurgia posterior. Ainda assim, havia ali um caminho. Paraty não seria só Ernesto. Não seria só Caio. Seria também a câmera, a legenda, a plateia, a pergunta de microfone, o contrato invisível entre quem mostra e quem consome.

À noite, depois de comer ovos mexidos em pé na cozinha e responder e-mails atrasados, Marina abriu a mala no chão do quarto. Separou três vestidos, duas calças, uma camisa branca, uma blusa preta sem decote, uma blusa vermelha que sempre parecia exagerada até o momento em que salvava a noite. Colocou também uma lingerie que não pretendia justificar para ninguém, um livro de ensaios que talvez não lesse, remédios, carregador, adaptador, um frasco pequeno de perfume e a pasta impressa da programação. Ao dobrar o vestido preto da livraria, encontrou no tecido um cheiro fraco do hotel, sabonete barato misturado a pele. Levou o vestido ao rosto por um segundo antes de perceber o gesto e jogá-lo dentro da mala com irritação.

O celular vibrou outra vez. Caio escreveu: “Vou de carro para Paraty na sexta cedo. Se você ainda não tiver transporte, posso te levar. Sem obrigação.” Marina sentou no chão, entre a mala aberta e a pilha de roupas recusadas. A van da organização sairia às sete, cheia de autores sonolentos, tote bags, perguntas previsíveis e alguém certamente disposto a falar de autoficção antes da serra. Ir com Caio significava quatro horas dentro de um carro com ele, talvez mais, dependendo do trânsito. Significava nenhum álibi, pouco público, música ruim ou boa demais, silêncio, pedágio, parada de banheiro, conversa que não poderia se esconder atrás do sexo durante pelo menos parte do trajeto. Significava uma estupidez prática. Significava querer.

Ela digitou: “Vou com a van.” Olhou para a frase. Apagou. Digitou: “Que horas?” Ele respondeu: “Seis. Passo aí. Café por minha conta.”

Marina deixou o celular sobre o tapete e continuou arrumando a mala. Dobrou a blusa vermelha com mais cuidado. Pegou a lingerie do fundo da gaveta e trocou por outra, menos bonita, depois voltou atrás e colocou a primeira de novo. Quando fechou o zíper, já era quase meia-noite. Abriu o arquivo da fala uma última vez e leu o primeiro parágrafo. Ainda estava limpo demais. Marina acrescentou uma linha no início, sem pensar muito:

“Na última vez que um homem tentou me explicar o obsceno, havia farelo de bolo na mesa e eu estava com vontade de ir embora.”

Dessa vez, não apagou.

Depois do Décimo Segundo

Sinopse

Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.

Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.

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