Universo da obra
Universo da obra
Marina dormiu pouco e acordou com a garganta seca, a boca amarga de vinho barato e a lembrança da frase de Ernesto instalada atrás dos olhos como um cisco que não saía com água. “Às vezes a diferença só aparece depois da publicação.” Não era exatamente ameaça, e talvez por isso incomodasse mais. Ameaça direta permitia resposta direta, queixa, corte, exposição. Aquilo era uma semente. Ernesto sabia fazer isso: deixava uma frase em terreno alheio e depois se retirava com as mãos limpas, como se qualquer coisa que crescesse ali fosse responsabilidade do solo. Marina ficou deitada alguns minutos, olhando para o ventilador de teto parado, ouvindo alguém arrastar uma mala no corredor e sentindo na pele os restos da noite anterior: a boca de Caio na sala trancada, o chão empoeirado sob os joelhos, o gosto dele na língua, o susto baixo de saber que, fora da porta, o festival seguia falando de literatura enquanto eles usavam o próprio corpo como resposta indecente a tanta teoria.
O celular estava no criado-mudo, debaixo do crachá. Havia mensagens de Júlia, da produtora, de duas autoras que queriam café, de uma jornalista pedindo entrevista rápida e de Caio. Marina abriu primeiro a de Júlia porque covardia também tinha suas hierarquias. “Recebi três vídeos seus falando buceta em público antes das nove da manhã. Estou orgulhosa e preocupada.” A segunda dizia: “Também recebi um áudio de alguém dizendo que você jantou o Ernesto vivo. Confere?” Marina respondeu: “Belisquei. Ainda sobrou para a mesa dele.” Júlia devolveu quase na hora: “Não subestime homem que sobrevive de parecer ferido em público.” Marina ficou olhando para a tela. A amiga não estava ali, não tinha visto Ernesto na parede do casarão, não tinha ouvido a frase sobre publicação. Mesmo assim, acertara no ponto com uma pontaria irritante.
A mensagem de Caio era curta: “Bom dia. Não mandei nenhuma foto sua da sessão noturna. Só ambiente, livros, palco vazio e plateia antes da leitura.” Marina leu de novo, depois uma terceira vez, procurando armadilha onde talvez houvesse apenas cuidado. Respondeu: “Não perguntei.” Ele digitou por alguns segundos. “Eu sei.” A resposta simples a desarmou o suficiente para que ela sentasse na cama com raiva. Caio tinha uma forma péssima de fazer o certo sem transformar aquilo em pedido de absolvição. Péssima porque a deixava com menos argumentos. Marina apoiou os pés no chão, viu a calça preta dobrada sobre a cadeira, a blusa vermelha jogada sobre a mala, o livro da leitura aberto de bruços na escrivaninha e a folha atualizada da programação presa sob a garrafa metálica do festival. Às quinze horas, Ernesto falaria na mesa “O obsceno domesticado: mercado, performance e autoria”. O título parecia agora uma provocação pessoal escrita por um comitê de homens com camisa clara.
Ela tomou banho demorado, lavando o cabelo apesar da umidade de Paraty, porque precisava de alguma sensação de reinício. Depois vestiu uma camisa branca de linho, calça preta e um batom escuro que talvez fosse demais para a tarde. Deixou. Se o festival tinha decidido tratá-la como assunto, ela não iria aparecer parecendo nota de rodapé. Desceu para o café quase no fim do horário e encontrou a sala cheia de ressaca cultural: autores de óculos escuros, jornalistas com notebook aberto entre pão e mamão, editores falando baixo demais sobre contratos, gente fingindo que não olhava para gente mais famosa. Caio estava numa mesa do canto, sozinho, com café preto e câmera dentro da mochila, não sobre a mesa. Marina viu o gesto antes de ver o rosto dele. Ele não tinha armado a própria ferramenta entre os dois. Bom. Irritante. Bom.
— Você parece alguém que vai depor contra uma instituição — Caio disse, quando ela sentou sem pedir licença.
— Depende do café.
— O café é ruim.
— Então haverá vítimas.
Ele empurrou para ela um prato com pão ainda inteiro, manteiga e uma banana. Marina olhou para a oferta.
— Você está me alimentando?
— Estou impedindo que você enfrente Ernesto só com cafeína e rancor.
— Rancor sustenta mais do que banana.
— Sustenta. Cobra depois.
Marina pegou a banana, descascou com raiva moderada e mordeu. Caio não sorriu, o que foi sensato. Havia algo diferente na manhã. O sexo da noite anterior não tinha resolvido a frase de Ernesto; tinha, no máximo, colocado outra camada por cima. Marina queria perguntar se Caio achava possível que alguém os tivesse visto sair daquela sala, se a produtora desconfiara, se Ernesto vira mais do que deveria, se havia fotos soltas circulando. Não perguntou. Perguntar daria à preocupação uma forma que ela ainda preferia manter amassada. Caio mexeu no café com uma colher pequena.
— Você viu a programação dele? — ele perguntou.
— Vi.
— Você vai?
— Claro.
— Como público, autora interessada ou ré com direito a réplica?
— Vou descobrir quando ele abrir a boca.
Caio assentiu. Marina percebeu que ele queria dizer alguma coisa e estava escolhendo se tinha direito. Esse processo, nele, já era visível demais para ela. A proximidade fazia isso: tornava os mecanismos de defesa do outro menos elegantes.
— Fala — ela disse.
— Ele quer que você reaja.
— Todo mundo quer.
— Não assim.
— Você acha que eu não sei?
— Acho que você sabe e talvez vá mesmo assim.
Marina deixou a casca da banana no prato, dobrou o guardanapo uma vez e olhou para ele. O café da manhã ao redor continuava com suas facas, xícaras, risadas baixas e frases interrompidas. Era quase ofensivo que uma conversa dessas tivesse de acontecer perto de pão de queijo frio.
— Caio, eu não tenho o luxo de não reagir. Se eu fico quieta, ele vira intérprete. Se eu falo, viro temperamental. Se eu ironizo, dizem que performo. Se eu sou didática, viro professora de homem adulto. A armadilha já está montada antes de eu chegar. Minha única margem é escolher onde chuto.
— Então escolhe onde a câmera não vira a arma dele.
Marina ficou parada. A frase tinha sido boa demais e ruim demais ao mesmo tempo.
— Essa é sua preocupação ou sua culpa preventiva?
— As duas podem coexistir.
Ela quase sorriu. Quase. Era uma frase dela devolvida, e isso poderia ter soado esperto demais, mas nele saiu baixo, sem triunfo. Marina pegou o café, bebeu e fez uma careta.
— Isso é óleo de motor com ambição universitária.
— Eu avisei.
— Você vai fotografar a mesa?
— Sou obrigado.
— Obrigado como?
— Cobertura oficial. Mesa de crítica. Tem imprensa externa também.
— E se eu falar?
— Eu fotografo o contexto. Não a sua garganta aberta para legenda alheia.
Marina olhou para a boca dele. Foi involuntário, o que a irritou. Lembrou dele encostado na parede da sala de depósito, gozando na boca dela enquanto tentava não fazer barulho. Lembrou da mão no cabelo. Lembrou da própria ordem, “nenhuma foto minha agora”, e da resposta dele, “principalmente se parecer”. A ética dele estava se misturando com desejo em algum lugar inconveniente. Ela levantou antes que a manhã ficasse íntima demais.
— Vou escrever antes da mesa — ela disse.
— Quer companhia?
— Quero silêncio.
— Posso oferecer os dois, mas não ao mesmo tempo.
— Aprende rápido, mas ainda não faz milagre.
Marina subiu para o quarto com um pão roubado no guardanapo e passou três horas entre o texto da noite anterior, anotações para a entrevista remarcada e frases possíveis para a mesa de Ernesto. Cortou quase todas. Respostas ensaiadas apodreciam na boca quando chegava a hora. Escreveu no topo de uma folha: “Não defender a obra. Atacar o modo de leitura.” Depois escreveu: “Não deixar que ele transforme tesão em embalagem sem admitir o próprio consumo.” Depois: “Não falar de Caio.” Sublinhou essa última. Não porque pretendesse falar. Porque o nome dele começava a se infiltrar onde não tinha sido chamado, como se a câmera, a boca e a presença tivessem virado um só problema com três entradas.
Às duas e quarenta, saiu do quarto. No corredor, encontrou a romancista argentina, que lhe ofereceu um cigarro sem perguntar se ela fumava. Marina recusou e aceitou caminhar junto até a tenda menor onde aconteceria a mesa de crítica. A argentina se chamava Lucía e tinha um olhar de quem escutava melhor do que respondia. Disse que a fala de Marina na abertura havia circulado nos grupos do festival desde cedo, com cortes ruins e legendas piores. Marina pediu para ver. Lucía mostrou um vídeo vertical em que Marina dizia “quando uma mulher descreve a própria fome” e outro, cortado de modo mais perverso, em que aparecia apenas a frase “se a personagem diz buceta”. A legenda dizia: “Autora causa polêmica ao defender linguagem pornográfica na literatura.” Marina devolveu o celular devagar.
— Já começaram a me economizar — ela disse.
— Economizar?
— Cortar até eu caber no bolso de quem quer me vender.
Lucía guardou o celular.
— Hoje vão tentar fazer isso ao vivo.
— Eu sei.
A tenda menor estava cheia antes do horário. Menos leitores comuns, mais gente do circuito: críticos, professores, jornalistas, editores, autores com a postura levemente inclinada de quem quer parecer disponível para conversa importante. O palco tinha quatro cadeiras, uma mesa baixa com garrafas de água e um banner azul com o título “O obsceno domesticado: mercado, performance e autoria”. Marina escolheu um lugar na lateral, terceira fileira, perto do corredor. Não queria centro. Não queria esconderijo. Caio estava do outro lado, conversando com uma fotógrafa de cabelo raspado e colete preto. Quando viu Marina, levantou dois dedos num cumprimento mínimo. Ela respondeu com o queixo. Ernesto subiu ao palco pouco depois, com uma pasta fina, camisa clara e uma confiança limpa demais para Paraty àquela hora.
A mesa começou com uma professora falando sobre circulação de obras eróticas no mercado digital, depois um editor falou de algoritmo, capa, tag, retenção e monetização de capítulos. Marina ouviu, anotou duas coisas úteis, discordou de quatro e se conteve. Ernesto era o terceiro. Quando pegou o microfone, agradeceu ao festival, citou a mesa de abertura do dia anterior sem citar Marina de início, falou do crescimento da literatura hot, do vocabulário explícito como marca de autenticidade vendável e da “performatividade da transgressão” em autoras contemporâneas que transformavam a recusa da vergonha em produto.
Marina escreveu no bloco: “produto é a mãe.” Riscou. Escreveu: “Respira.” Riscou também.
— Não se trata de condenar a cena explícita — Ernesto dizia, com a voz lisa, bem colocada, quase agradável. — Seria moralismo primário. A questão é mais delicada: quando a obra erotiza sua própria recepção, quando a autora se posiciona como instância de desafio ao leitor, o obsceno deixa de ser ruptura e passa a operar como contrato de consumo. O choque é previsto, precificado e incorporado ao capital simbólico da obra.
Caio fotografou o palco. Marina viu pelo canto do olho. Não fotografou a reação dela. Bom. Ernesto continuou, agora mais próximo do ponto onde queria chegar.
— Nesse cenário, a palavra crua, “buceta”, “pau”, “boquete”, deixa de ser apenas escolha estética e passa a funcionar como sinalização de coragem. O mercado adora coragem quando ela vem embalada em identidade autoral reconhecível. Não por acaso, certas autoras se tornam personagens públicas de sua própria obscenidade.
Algumas cabeças se viraram para Marina. Não muitas. As suficientes. Ela manteve o olhar no palco e a caneta imóvel. A professora ao lado de Ernesto olhou para a água. O editor fingiu consultar notas. O mediador, um jornalista cultural com cara de quem temia virar pauta secundária, sorriu com desconforto. Ernesto não olhou diretamente para Marina. Esse era o requinte: atirar olhando para o horizonte.
— O problema não é a mulher escrever desejo — Ernesto disse. — O problema é quando o gesto se vende como libertação enquanto reproduz as lógicas mais eficientes da exposição contemporânea.
Marina fechou o bloco. Lucía, sentada duas fileiras atrás, soltou um “hum” quase inaudível. Caio abaixou a câmera e olhou para Marina. Não com pedido. Com aviso. Ela sabia. Sabia mesmo. A armadilha estava no chão, brilhando sob a luz da tenda, e ainda assim havia momentos em que desviar parecia aceitar que o caminho pertencia a quem a colocara ali.
A rodada de falas terminou. O mediador abriu perguntas. Duas vieram antes da dela: uma professora perguntou sobre plataformas, um rapaz perguntou sobre pseudônimo e autoria. Ernesto respondeu com elegância, usando “complexo” três vezes em menos de dois minutos. Marina levantou a mão na terceira abertura. O mediador a viu, hesitou por uma fração ridícula e mandou o microfone. Houve um deslocamento físico na tenda, quase uma arrumação de coluna vertebral coletiva.
— Marina — o mediador disse, como se o nome dela precisasse de almofada.
— Obrigada — Marina disse, pegando o microfone. — Ernesto, eu queria entender uma coisa. Quando você diz que certas autoras viram personagens públicas da própria obscenidade, você está fazendo uma crítica ao mercado que consome essas autoras ou às autoras que não tiveram a gentileza de continuar ilegíveis?
A plateia reagiu antes dele. Um riso curto, um murmúrio, alguém dizendo baixo “boa”. Ernesto sorriu, agora olhando para ela.
— A crítica é ao dispositivo, Marina. Não ao indivíduo.
— Claro. Dispositivo é sempre um jeito confortável de falar de pessoas sem encostar nelas.
— Acho que você está personalizando uma discussão estrutural.
— Estou perguntando quem paga a conta da estrutura quando você decide exemplificar sem nomear.
O mediador segurou o próprio microfone com as duas mãos. Caio não fotografou. Marina percebeu. Outra câmera, porém, fotografou. A mulher de colete preto, do outro lado. Clique. Depois outro. Marina ouviu. Não olhou. Ernesto inclinou a cabeça.
— Se você se reconhece na análise, talvez isso diga algo sobre a força do fenômeno.
— Diz algo sobre a preguiça do método.
O riso veio mais forte. Ernesto perdeu uma camada de verniz e a repôs rápido.
— Eu esperava que justamente você tivesse interesse em discutir os riscos da captura mercadológica.
— Eu tenho. Por isso me incomoda quando você fala do mercado como se fosse uma entidade abstrata e da autora como se fosse cúmplice inevitável da própria captura. Você diz que a palavra “buceta” vira sinalização de coragem vendável. Pode ser. Mas eu nunca vejo você perguntar por que uma palavra comum do corpo feminino chega ao debate literário ainda carregando esse poder de escândalo. Talvez o mercado venda porque a crítica ajudou a manter a palavra interditada tempo suficiente para lucrar com a liberação.
Houve aplauso. Não enorme. O suficiente para alterar a temperatura. O mediador tentou intervir, mas Ernesto respondeu por cima, educado e rápido.
— O interdito também é produzido por quem o explora.
— Sim. E o diagnóstico também pode ser exploratório.
— Você está sugerindo que a crítica não deve tocar nesses temas?
— Estou sugerindo que, antes de tocar, lave as mãos e admita o desejo de tocar.
Dessa vez o som da tenda foi maior. Risos, aplausos, algumas exclamações, uma cadeira arrastando. A frase era arriscada, quase performática demais, e Marina soube no instante em que a disse que ela circularia sem o parágrafo anterior. Sentiu o perigo e a satisfação juntos. Caio levantou a câmera, fotografou Ernesto, fotografou o mediador, fotografou a plateia, não ela. A fotógrafa de colete fotografou Marina com o microfone na mão, o rosto inclinado, a boca ainda armada para resposta. Esse clique ela ouviu como se fosse mais perto.
Ernesto respirou, apoiou a pasta no joelho e mudou o tom.
— Você prefere deslocar a conversa para insinuação pessoal. Isso confirma parte do meu argumento sobre performance.
Marina sorriu sem alegria.
— Ernesto, eu não insinuei nada pessoal. Eu falei de método. Quem ficou nervoso com a ideia de admitir desejo diante do objeto de análise foi você.
O mediador entrou antes que aquilo virasse outra coisa.
— Acho que temos aqui um ponto importante sobre lugar de fala crítica, recepção e mercado — ele disse, suando pouco e tarde. — Talvez possamos ouvir também os outros participantes.
Marina devolveu o microfone. As mãos estavam estáveis, para sua surpresa. O corpo, não. O coração batia com força, e havia uma excitação irritante misturada à adrenalina, a mesma eletricidade ruim da noite anterior, quando leitura pública e desejo privado tinham se encontrado numa sala trancada. Ela queria sair dali, queria falar mais, queria beijar Caio no corredor só para estragar o controle de alguém, queria voltar ao quarto e escrever a cena inteira antes que o festival a mastigasse. Nenhuma dessas vontades era útil naquele momento. Ficou sentada.
O resto da mesa virou terreno minado. A professora tentou reconduzir a discussão para mercado digital e fez isso com competência. O editor falou de plataforma, dados, público pagante. Ernesto ficou mais econômico, o que nele parecia derrota apenas para quem soubesse procurar. Quando a mesa terminou, a tenda se dividiu em grupos rápidos. Algumas pessoas vieram falar com Marina, todas com a expressão animada e culpada de quem havia presenciado uma briga boa. Ela recebeu elogios, discordâncias educadas, pedidos de foto, um convite para podcast e duas tentativas de transformar o confronto em “momento histórico”, o que a fez querer uma bebida às quatro da tarde.
Caio chegou perto apenas quando havia espaço.
— A fotógrafa externa pegou você — ele disse.
— Eu ouvi.
— Bastante.
— Você não.
— Não.
Marina olhou para ele, e por um segundo o barulho da tenda pareceu afastar. Não era gratidão exatamente. Gratidão parecia pequena e obediente demais. Era reconhecimento de uma escolha. Ele tinha feito a foto que o trabalho pedia sem produzir a imagem que o rumor queria. E, ainda assim, a imagem existia em outra câmera. A diferença, como Ernesto avisara, talvez aparecesse depois da publicação.
— Quem é ela? — Marina perguntou.
— Paula Antunes. Freelancer para dois veículos. Boa fotógrafa.
— Ética?
— Depende do editor.
— Isso não é resposta.
— É a resposta que eu tenho.
Marina passou a mão pelo cabelo, puxando os fios da testa úmida. Lucía se aproximou com duas garrafas de água e entregou uma a Marina.
— Vão cortar sua fala — Lucía disse.
— Qual delas?
— A mais vendável.
Marina abriu a água, bebeu quase metade e olhou para a saída da tenda. Ernesto estava lá, cercado por dois jornalistas e um professor. Falava com calma, talvez recompondo a versão oficial do que acabara de acontecer. A fotógrafa Paula mostrava imagens na tela da câmera para um homem de camisa jeans. Caio seguiu o olhar de Marina.
— Quer que eu fale com ela? — ele perguntou.
— Como o quê?
— Como colega.
— E vai dizer o quê? Que a mulher que acabou de acusar crítica de desejo quer controlar foto?
— Vou perguntar destino de publicação, veículo e legenda provável.
Marina quase disse não. Quase. O orgulho tinha reflexos péssimos. Lucía, que parecia entender português rápido demais quando convinha, bebeu água e não se meteu. Marina fechou a garrafa.
— Pergunta — ela disse. — Sem pedir favor.
Caio assentiu e foi. Marina ficou com Lucía, olhando-o atravessar a tenda. A argentina acompanhou também, sem disfarce.
— Ele é seu? — Lucía perguntou.
Marina soltou uma risada curta.
— Ninguém aqui é tão otimista.
— Então é perigoso.
— Quase tudo que presta é.
Caio falou com Paula por menos de três minutos. Não pareceu discussão. Paula mostrou a tela, ele olhou, disse algo, ela deu de ombros, depois sorriu de um jeito profissional. O homem de camisa jeans entrou na conversa. Caio não gesticulou muito. Marina odiou estar longe. Odiou também querer que ele resolvesse alguma coisa sem que ela precisasse pedir mais. Quando voltou, o rosto dele não trazia alívio.
— Vai para um portal ainda hoje — Caio disse. — Matéria sobre a mesa. Ela não decide legenda. O editor quer “debate quente” entre você e Ernesto.
— Debate quente — Marina repetiu.
— Ela tem uma foto forte sua com o microfone e outra dele sorrindo. A sua é melhor.
— Melhor para quem?
— Para clique.
Marina sentiu a água gelada pesar no estômago. Não era surpresa. Surpresa seria o contrário. Mesmo assim, havia algo especialmente nojento na velocidade: a fala mal tinha acabado e já estava sendo reduzida a enquadramento, legenda, tráfego. A crítica de Ernesto, por mais canalha que fosse, conhecia bem a máquina. Talvez por isso ele a usasse com tanta tranquilidade. Ele apontava o mercado com uma mão e oferecia a outra para guiá-lo.
— O que você faria? — Marina perguntou.
Caio não respondeu de imediato.
— Eu pediria para ver a seleção antes da publicação, sabendo que podem negar. E mandaria uma frase sua por escrito para o editor, não para defender, para enquadrar.
— Enquadrar.
— Sim.
— Palavra perigosa para fotógrafo.
— Eu sei.
Marina pegou o celular. Tinha mensagens novas de Júlia: “Já tem gente falando da mesa do Ernesto. O que você fez?” Depois: “Não responde ainda se estiver com raiva.” Marina escreveu: “Falei.” Júlia respondeu: “Perigoso. Manda contexto.” Marina olhou para Caio.
— Você tem foto do contexto?
— Tenho.
— Palco, plateia, ele falando, mediador, reação geral?
— Tenho.
— Me manda agora.
Caio tirou o cartão da câmera, colocou num adaptador conectado ao celular e começou a selecionar imagens. Marina observou as miniaturas passando: Ernesto no palco, a mesa inteira, a plateia de lado, o mediador no meio do quase desastre, mãos levantadas, jornalistas anotando, ela de costas em uma única imagem ampla, pequena no quadro, microfone na mão, não devorada pela própria expressão. Aquilo a acalmou mais do que deveria. Ele tinha contado a cena sem arrancá-la do lugar. Mandou seis fotos.
Marina encaminhou duas para Júlia com a mensagem: “Se circular corte meu, aqui está o entorno.” Depois abriu uma nota e escreveu uma frase para o portal, caso respondessem: “A discussão não é sobre uma autora defender palavras explícitas como marca de coragem, e sim sobre por que a crítica trata o desejo escrito por mulheres como mercadoria suspeita antes de examinar o próprio prazer de consumir essa suspeita.” Leu duas vezes. Ainda estava comprida. Cortou. “O problema não é a palavra crua. É a pressa de transformar a mulher que a escreve em produto, sintoma ou escândalo.” Melhor.
Caio leu por cima do ombro dela porque ela deixou.
— Boa — ele disse.
— Ainda com sapato limpo?
— Um pouco. Mas pisa.
Marina olhou para ele e sentiu vontade de beijá-lo ali, no meio da tenda quase vazia, com Ernesto a poucos metros e Paula talvez ainda com a câmera ligada. Não beijou. Aproximou-se apenas o suficiente para tirar um fiapo da gola dele, como fizera na chegada, e disse baixo:
— Ontem você terminou ajoelhado. Hoje está quase útil em pé.
Caio segurou o sorriso.
— Evolução profissional.
— Não se empolga.
O celular dela vibrou. Número desconhecido. Mensagem de WhatsApp com identificação de um portal cultural: “Oi, Marina, aqui é Tiago, do Palavra Aberta. Vamos publicar nota sobre a mesa de hoje. Você gostaria de comentar a troca com Ernesto Valadares?” Marina mostrou a tela a Caio, depois a Lucía, que tinha voltado a fumar perto da saída.
— Responde agora — Lucía disse. — Antes que respondam por você.
Marina colou a frase editada, acrescentou no início “Obrigada pelo contato” porque ainda vivia num país burocrático do afeto, e enviou. Depois mandou as fotos de contexto de Caio, creditadas a ele, com autorização explícita para uso apenas se mantivessem legenda factual. O portal visualizou quase imediatamente. Nenhuma resposta por alguns minutos. O suficiente para a ansiedade começar a procurar móveis dentro dela.
Às cinco e meia, já no quarto, Marina recebeu o link. O título dizia: “Marina Azevedo confronta Ernesto Valadares em debate sobre literatura hot e mercado.” Não era ótimo. Também não era o pior. A foto principal, porém, era de Paula: Marina com o microfone na mão, rosto inclinado, batom escuro, expressão afiada, Ernesto ao fundo desfocado, sorrindo de um jeito que parecia superior porque a profundidade de campo decidira ser canalha. A legenda: “Autora questionou crítica sobre desejo e mercado durante mesa em Paraty.” O comentário dela entrava no terceiro parágrafo, cortado, mas não destruído. As fotos de Caio apareciam abaixo, em galeria: mesa completa, público, Ernesto falando, contexto. Crédito correto.
Marina sentou na cama com o celular na mão. Caio estava no batente da varanda, porque subira para entregar um cartão de memória e acabara ficando. O sol começava a cair sobre telhados molhados. A cidade fazia barulho de fim de tarde, copos, passos, uma moto distante, alguém rindo alto demais.
— Poderia ser pior — Caio disse.
— Frase de epitáfio.
— Sim.
Marina abriu a foto principal de novo. Era boa. Esse era o problema. A foto era boa e a reduzia ao mesmo tempo. Não mentia, mas escolhia. Toda imagem escolhia. Ela sabia disso. Saber não impedia a raiva. A foto pegava a força, não o raciocínio. A boca, não o método. A lâmina, não a mão que a segurava.
— Você teria feito diferente? — ela perguntou.
Caio ficou quieto.
— Teria.
— Como?
— Mais largo. Com ele no mesmo plano. Sem te transformar na única combustão da cena.
Marina gostou da palavra combustão e odiou gostar. Jogou o celular na cama e ficou de pé. A tensão do dia inteiro veio cobrar o corpo: ombros, nuca, mandíbula, coxa ainda com a memória da sala de depósito. Ela foi até Caio e parou perto dele.
— Eu quero uma coisa — ela disse.
— Diz.
— Hoje não quero ser fotografada. Por você, por ninguém. Se vierem pedir, você diz que acabou meu expediente de imagem.
— Digo.
— E se eu quiser sair daqui sem jantar, sem roda, sem escritor me explicando repercussão?
— Eu dirijo, caminho, chamo carro, invento intoxicação alimentar. Você escolhe.
— Você está ficando bom nisso.
— Coisa verificável.
Marina beijou-o. Não foi beijo de cena roubada, nem provocação pública, nem ordem. Foi cansaço encostando em vontade. Caio recebeu sem tentar tomar. Ela passou as mãos pelo peito dele, desceu até o cinto, sentiu o corpo dele responder, e por alguns segundos a raiva do artigo, de Ernesto, da foto e da legenda encontrou um lugar conhecido por onde sair. Depois Marina parou, com a boca ainda perto da dele.
— Não agora — ela disse.
— Tudo bem.
— Eu quero querer sem usar isso para apagar o resto.
Caio encostou a testa na dela.
— Tudo bem — repetiu.
Marina ficou assim mais um pouco, respirando com ele, enquanto o celular vibrava sobre a cama com novas mensagens, novos cortes, novas leituras do que ela tinha dito. Do lado de fora, Paraty seguia bonita demais para a quantidade de pequenas violências que cabiam em suas tendas. No quarto, havia a blusa branca dela pendurada na cadeira, o crachá jogado perto da janela, a câmera de Caio fechada dentro da mochila e uma foto circulando pela internet com uma versão dela que já não lhe pertencia inteira.
Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.
Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.
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