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Depois do Décimo Segundo

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Depois do Décimo Segundo

Capítulo 4 · Depois do Décimo Segundo

Estrada

4 de 12 ≈ 20 min de leitura

Às cinco e quarenta e sete, Marina estava sentada sobre a mala fechada, tentando encaixar o zíper lateral que sempre emperrava no mesmo ponto. Tinha dormido pouco, acordado antes do alarme e passado vinte minutos parada diante do armário, irritada com a própria disposição de escolher roupa como quem escolhia argumento. A blusa vermelha foi para a mala, saiu, voltou. A lingerie bonita ficou escondida entre duas camisetas, não por pudor, e sim porque Marina se recusava a transformar uma calcinha em declaração de intenções. Na cozinha, o café tinha ficado forte demais e quase frio. Na pia, havia a frigideira dos ovos da noite anterior, uma faca com manteiga seca e o copo em que ela tomara água antes de dormir. Ela conferiu o notebook, o carregador, os remédios, o texto de Paraty impresso em três versões, todas com riscos e setas, e uma quarta versão no celular com a frase do farelo de bolo no começo. Quando o interfone tocou, Marina ainda estava descalça.

— Ele subiu? — ela perguntou ao porteiro, já procurando os sapatos perto da porta.

— O senhor Caio está aqui embaixo, dona Marina. Disse que espera.

O “senhor Caio” quase a fez rir. Marina calçou uma sandália, pegou a mala, voltou para buscar o perfume, esqueceu a chave, voltou de novo, desligou uma luminária que já estava desligada e saiu do apartamento com a sensação irritante de que estava esquecendo alguma coisa só porque queria que houvesse motivo para demorar. No elevador, viu o próprio rosto no espelho manchado: cabelo preso sem paciência, boca sem batom, óculos escuros na cabeça, camiseta branca, calça preta, casaco dobrado no braço. A marca no pescoço tinha quase sumido. Quase. Ela tocou a pele com a ponta dos dedos e pensou em Caio vendo aquilo depois, no carro, talvez sem comentar, talvez comentando do jeito errado. Quando a porta abriu no térreo, ele estava do lado de fora do vidro, encostado no carro, com duas garrafas de água no teto, uma sacola de padaria na mão e cara de quem também dormira pouco.

— Você trouxe café? — Marina perguntou, antes de bom dia.

— Trouxe café, pão de queijo e um croissant que parecia melhor na vitrine — Caio disse, pegando a mala dela. — Bom dia.

— Não força intimidade antes da cafeína.

— Anotado.

O carro era limpo sem ser novo, com uma mochila de equipamento no banco de trás, uma jaqueta jogada sobre a mala dele e um cheiro leve de café derramado antigo que nenhum aromatizador venceria. Marina sentou no banco do passageiro, ajeitou a bolsa aos pés, recebeu o copo de papel e bebeu antes de colocar o cinto. Caio guardou a mala no porta-malas, entrou, conferiu o endereço no celular e perguntou se ela preferia música, silêncio ou alguém falando mal de edital cultural. Marina escolheu silêncio durante os primeiros quinze minutos. Ele aceitou sem fazer cena. Isso contou ponto de novo, e ela já começava a se irritar com a contabilidade interna daquele homem.

São Paulo ainda bocejava quando saíram. As padarias acendiam balcões, entregadores se reuniam nas esquinas, ônibus soltavam gente com o rosto fechado e uma mulher atravessou a rua com uma sacola de pão pendurada no pulso, discutindo com alguém pelo telefone. Marina comeu metade do pão de queijo, deixou migalhas na calça e abriu o celular para reler o texto. Caio dirigia com uma mão no volante e outra perto do câmbio, sem tentar olhar a tela dela. A estrada começou a aparecer aos poucos, primeiro como promessa entre prédios, depois como faixa de asfalto cinza e placas verdes. O céu estava baixo. Marina odiava manhãs bonitas em dia de viagem porque pareciam cobrar uma disposição que ela não tinha; aquela manhã nublada lhe pareceu honesta.

— Você leu sua fala ontem? — Caio perguntou, depois de quase meia hora.

— Li.

— E?

— Ainda tem partes que parecem escritas por uma mulher tentando convencer uma banca de que tem direito a usar a palavra buceta sem pedir licença.

Caio soltou um riso curto, mantendo os olhos na pista.

— Essa frase deveria estar na fala.

— Talvez esteja agora.

— Você vai falar “buceta” na mesa de abertura?

— Se Ernesto estiver na primeira fileira, talvez eu fale olhando para ele.

— Isso daria uma foto boa.

Marina virou o rosto devagar.

— Cuidado.

— Eu disse foto boa, não foto publicável.

Ela bebeu café para não responder rápido demais. A diferença importava, outra vez. Caio sabia escolher palavras quando queria, e Marina estava começando a suspeitar que parte do problema não era ele errar tanto, mas acertar de um jeito que a deixava sem escada para descer da própria defesa. Abriu a pasta de fotos no celular, reviu a imagem dela no corredor lateral da livraria, aquela que ele tinha chamado de sua. Não mostrou a ele. Só ficou olhando tempo suficiente para Caio perceber pelo canto do olho.

— Ainda quer que eu guarde? — ele perguntou.

— Quero.

— Certo.

— Você não vai me perguntar por quê?

— Eu tenho vontade. Não tenho direito automático.

Marina travou o celular e guardou na bolsa.

— Você está muito bem-comportado para alguém que ontem estava com a cara enfiada na minha buceta.

Caio apertou os lábios por um segundo, e Marina viu a mão dele fechar um pouco mais no volante. Gostou. Havia prazer em arrancar uma reação concreta no meio daquele controle rodoviário, em colocar a vulgaridade onde o mundo esperava conversa limpa, em lembrar que por baixo do cinto, da camisa e da direção responsável havia o mesmo homem que tinha ajoelhado diante dela sem pedir prêmio por obediência.

— Eu consigo fazer as duas coisas — ele disse.

— Dirigir e lembrar?

— Dirigir e não transformar tesão em imprudência.

A resposta veio boa demais, e Marina decidiu castigá-lo por isso com silêncio. Não um silêncio ofendido. Um silêncio de trabalho. Abriu o notebook sobre o colo, conectou o celular para rotear internet e começou a mexer no texto, cortando as frases que pareciam palestra e colocando no lugar coisas que tinham sujeira nas bordas. Escreveu sobre mulheres que recebiam e-mails de leitores perguntando se aquela cena tinha acontecido de verdade, como se imaginação feminina fosse sempre confissão disfarçada. Escreveu sobre homens que suportavam violência estética sem piscar, mas ficavam ruborizados quando uma personagem dizia que queria sentar na cara de alguém. Escreveu “pau” em uma frase, apagou, escreveu de novo, manteve. Caio não olhou. Marina percebeu cada vez que ele não olhou.

Na altura de uma parada de estrada, depois de um trecho lento por causa de obras, Caio perguntou se ela queria banheiro. Marina queria, e também queria café novo, água e cinco minutos longe da própria excitação mal administrada. A lanchonete estava cheia de famílias em viagem, caminhoneiros, um grupo de universitários com mochilas enormes e uma senhora discutindo o preço de um salgado com a caixa. Marina lavou o rosto no banheiro, prendeu melhor o cabelo e viu, ao sair, Caio parado perto das prateleiras de biscoito, falando ao telefone com alguém da organização do festival. Ele dizia sim, dizia horário, dizia credencial, dizia envio das fotos em lote separado. Quando desligou, Marina estava perto o bastante para ouvir a última frase.

— Não, foto de bastidor só com autorização individual — Caio disse ao telefone. — Isso não é material de decoração.

Marina pegou uma garrafa de água da geladeira e levou ao caixa sem comentar. O problema de gestos corretos era que eles não pediam aplauso, e por isso mesmo ficavam mais difíceis de reduzir a encenação. Ela pagou a água, um pacote de amendoim e um chocolate que fingiu comprar para a estrada. No estacionamento, antes de entrarem no carro, Caio abriu a porta para ela. Marina parou.

— Não começa com cavalheirismo de manual.

— O carro estava quente. Eu abri para circular ar.

— Ótimo. Continue técnico.

Eles voltaram para a estrada, e a serra começou a mudar o humor da viagem. O asfalto estreitou em certos pontos, as curvas ficaram mais próximas, a vegetação entrou pelas laterais com uma insistência verde que Marina achava bonita contra a própria vontade. Choveu por dez minutos, uma chuva fina que sujou o para-brisa e fez Caio reduzir. Ela fechou o notebook porque não conseguia mais escrever com o carro balançando e ficou olhando a mão dele no volante. A mão que tinha segurado sua coxa, aberto suas pernas, tocado seu cuzinho com cuidado depois de ela mandar. Era ridículo que a mesma mão agora sinalizasse mudança de faixa e ajustasse o limpador. Ridículo e útil. O desejo às vezes precisava dessas provas banais para não virar delírio.

— Encosta em algum lugar seguro — Marina disse.

Caio olhou para ela rápido, depois para a pista.

— Você está passando mal?

— Não.

— Quer trocar de lugar?

— Não.

— Então?

Marina virou o corpo um pouco no banco, mantendo o cinto, os olhos nele.

— Eu quero te beijar sem você dirigir ao mesmo tempo.

Caio ficou dois segundos sem responder. Depois ligou a seta e seguiu até uma entrada com placa de pousada e restaurante, alguns quilômetros adiante. Não era bonito. Tinha um estacionamento de brita, um cachorro dormindo debaixo de uma marquise, duas mesas de plástico vazias e uma recepção com ventilador antigo girando atrás do balcão. Marina desceu antes dele terminar de desligar o carro. Caio veio atrás, sem tocar nela ainda. A dona do lugar, uma mulher de uns cinquenta anos com cabelo preso e expressão de quem já vira todas as versões possíveis de casal em trânsito, informou que havia quartos por hora ou diária, sem levantar a sobrancelha. Marina pagou antes que Caio pegasse a carteira.

— Isso é uma reunião de trabalho — Marina disse, assinando o comprovante.

— Claro — a mulher respondeu, entregando a chave. — A sala três fica no corredor à esquerda.

A sala três tinha cama de casal com colcha florida, ar-condicionado barulhento, espelho pequeno torto na parede, uma pia fora do banheiro e cheiro de desinfetante tentando vencer mofo. Marina entrou, largou a bolsa numa cadeira e virou a chave. Caio ficou perto da porta, olhando para ela com uma pergunta sem frase. Aquela hesitação era necessária. Não por delicadeza ornamental, mas porque o desejo deles funcionava melhor quando a escolha aparecia antes do ato.

— Eu quero — Marina disse, tirando os óculos escuros da cabeça. — Quero agora, aqui, antes de chegar naquele festival cheio de gente pronta para falar de sexo como se estivesse segurando talher de peixe.

Caio foi até ela. O beijo não teve a construção da noite anterior. Veio com estrada, café, chuva, irritação e a pausa forçada de quem passou horas sentado ao lado do que queria. Marina puxou a camisa dele para fora da calça, abriu os botões com pressa e mordeu o pescoço dele enquanto Caio segurava sua cintura. Ela sentiu o pau dele endurecer contra sua barriga e riu na boca dele, uma risada curta, satisfeita, quase cruel.

— Você passou a manhã inteira assim? — ela perguntou, desabotoando a calça dele.

— Parte dela.

— Que parte?

— Desde a buceta no carro.

— Bom.

Marina ajoelhou no chão frio sem esperar toalha, tapete ou conforto. Puxou a calça e a cueca dele para baixo, segurou o pau já duro e passou a língua pela cabeça, devagar o bastante para ver Caio apoiar uma das mãos na parede. O lugar era feio, a luz era ruim, havia um zumbido no ar-condicionado e alguém arrastava cadeira em algum ponto do corredor. Isso, por algum motivo, deixava tudo mais indecente. Marina não queria cenário bonito. Queria o pau dele na boca e a prova simples de que ainda conseguia interromper a estrada, o festival, a programação e o bom comportamento com uma ordem do próprio corpo.

Ela chupou com vontade, sem a paciência calculada do hotel. Desceu mais fundo, subiu com saliva escorrendo, masturbou a base enquanto usava a boca na cabeça, olhou para cima só para encontrar Caio menos composto do que no carro. Ele segurou o cabelo dela depois de uma permissão que ela nem precisou repetir; a mão veio firme, sem empurrar além do que ela aceitava. Marina gostou da pressão. Gostou de sentir o couro cabeludo puxar um pouco quando ele perdeu o ar. Gostou de tirar o pau da boca e ver o fio de saliva ligar a língua dela à cabeça dele antes de se romper.

— Você quer gozar na minha boca? — ela perguntou, com a mão ainda trabalhando nele.

Caio respirou fundo, os olhos fechados por um segundo.

— Quero.

— Não agora.

Ela levantou, limpou o canto da boca com o polegar e foi até a bolsa. Tirou uma camisinha e jogou sobre a cama. Caio abriu a embalagem enquanto Marina tirava a calça, depois a calcinha, sem pressa de esconder o quanto estava molhada. Deixou a camiseta no corpo porque gostou da vulgaridade prática daquilo: seminua da cintura para baixo, no quarto feio de uma pousada de estrada, enquanto um fotógrafo oficial de festival literário colocava camisinha com a mão menos calma do que gostaria.

— Deita — ela mandou.

Caio deitou. Marina subiu sobre ele, segurou o pau pela base e esfregou a cabeça na própria buceta, usando a umidade para provocar os dois. Quando sentou, foi devagar no primeiro movimento, sentindo o pau entrar, abrir, ocupar. Fechou os olhos, respirou pelo nariz e desceu até o fim. A cama rangeu de um jeito ridículo. Ela abriu os olhos e viu Caio olhando para onde os corpos se juntavam, para a buceta engolindo o pau dele, para a mão dela apoiada no próprio abdômen enquanto começava a se mover.

— Olha para mim — Marina disse.

Ele olhou.

— Agora pode olhar para a minha buceta também.

Caio riu, e o riso virou gemido quando ela começou a cavalgar com mais força. Marina apoiou as mãos no peito dele, usando o corpo dele como ponto de equilíbrio, subindo e descendo num ritmo que foi deixando as coxas tensas e a respiração curta. O pau entrava fundo, a camisinha brilhando com a umidade dela, e cada impacto fazia a cama bater de leve na parede. Caio segurou os quadris dela, primeiro acompanhando, depois ajudando, puxando-a para baixo quando ela descia, fazendo o encaixe ficar mais bruto.

— Isso — Marina disse, com a voz falhando. — Me puxa. Quero sentir esse pau inteiro.

Ele obedeceu. Marina jogou a cabeça para trás, a camiseta subindo o bastante para mostrar os seios, e levou uma mão ao próprio clitóris. Tocou-se enquanto cavalgava, sem cerimônia, sem tentar ficar bonita para ele. Caio viu. Ela fez questão que visse. Aquilo era parte da resposta que vinha escrevendo para Paraty, embora não coubesse em mesa nenhuma: uma mulher metendo no próprio ritmo, dizendo o nome vulgar das coisas, escolhendo o que mostrar e a quem. O orgasmo começou a se formar baixo, puxando os músculos das pernas, fechando a garganta, deixando os movimentos menos regulares.

— Fala — ela pediu. — Fala o que você está vendo.

Caio apertou os dedos na cintura dela.

— Estou vendo você se comer no meu pau.

Marina gemeu alto.

— Continua.

— Estou vendo sua buceta molhada descendo em mim. Estou vendo você se tocar porque sabe exatamente como quer gozar.

A frase empurrou o prazer para o lugar certo. Marina acelerou a mão no clitóris, desceu mais forte, sentiu o pau fundo e gozou com um palavrão, curvada sobre ele, os dedos fechando no peito de Caio. O corpo dela contraiu em volta dele, e Caio perdeu o resto do controle, segurando-a pelos quadris e metendo de baixo para cima em estocadas curtas, rápidas, até gozar dentro da camisinha com um som baixo e feio, desses que não servem para sedução porque acontecem antes de qualquer vaidade.

Marina ficou sentada nele por alguns segundos, respirando mal, sentindo o pau ainda dentro dela amolecer aos poucos. O ar-condicionado fazia um barulho estúpido. No corredor, alguém riu. Ela saiu de cima com cuidado, deitou ao lado dele e olhou para o teto manchado. Caio amarrou a camisinha, levantou para jogar no lixo do banheiro e voltou com papel para ela, sem transformar o gesto em ternura. Marina aceitou. Limpou-se, vestiu a calcinha devagar e procurou a calça com o pé.

— Isso vai atrasar a chegada — Caio disse, ainda nu da cintura para baixo.

— A culpa é sua.

— Minha?

— Você dirigiu bem demais. Me deixou com energia acumulada.

— Vou tentar piorar nas próximas curvas.

— Não ouse.

Eles ficaram mais dez minutos no quarto, o suficiente para o corpo entender que precisava voltar a ser apresentável. Marina lavou as mãos na pia, arrumou o cabelo, passou batom sem espelho decente e viu Caio abotoar a camisa com uma marca vermelha nova perto da clavícula. Ela tinha feito sem perceber. Tocou a marca com dois dedos, e ele parou.

— Essa vai aparecer? — ele perguntou.

— Se aparecer, diga que foi uma crítica literária.

— Das melhores que já recebi.

Marina pegou a bolsa e abriu a porta. A dona da pousada estava no balcão, folheando uma revista de receitas, e não olhou para eles com interesse especial. Isso decepcionou Marina um pouco. O mundo às vezes era discreto demais diante do esforço humano de produzir escândalo. No carro, Caio ligou o ar, esperou o para-brisa desembaçar e só então voltou para a estrada. Marina sentou mais relaxada, com as pernas ainda um pouco moles e a cabeça menos cheia. O texto de Paraty parecia diferente depois do quarto feio. Não melhor, necessariamente. Mais responsável. Se ela falaria de pornografia, autoria e controle, precisava lembrar que o obsceno não morava na palavra crua. Morava em quem achava que podia decidir quando a palavra de uma mulher virava excesso.

A aproximação de Paraty trouxe trânsito, vans, placas de pousada, gente atravessando sem olhar e a umidade grudando na pele antes mesmo de abrirem as janelas. Marina viu as primeiras casas coloniais, as pedras irregulares, as faixas do festival penduradas em postes, livrarias temporárias sendo montadas, autores com crachá pendurado no pescoço como se fosse documento de importância. O celular dela começou a vibrar com mensagens da produção. Júlia perguntava se ela já tinha chegado e se Caio ainda estava vivo. Marina respondeu: “Vivo. Com atraso logístico não especificado.” Júlia mandou: “Nojo. Detalhes depois.”

O hotel da organização ficava numa rua estreita, com fachada branca, janelas azuis e uma recepção pequena onde duas pessoas discutiam quartos enquanto uma pilha de ecobags ocupava metade do balcão. Caio estacionou perto da entrada para descarregar. Marina desceu, ajeitou a blusa, pegou a mala e sentiu a mudança imediata no ar quando duas autoras conhecidas acenaram do outro lado da rua. O festival começava ali, antes da credencial, antes da mesa, antes do primeiro café ruim servido em copo biodegradável. Começava no instante em que o corpo precisava voltar a medir gesto, distância, sorriso.

Caio tirou a mochila do banco de trás e colocou a câmera no ombro. A transformação foi visível. Não total, não falsa, mas suficiente para Marina perceber o fotógrafo oficial entrando no lugar do homem que, meia hora antes, gemia debaixo dela numa cama de colcha florida.

— A gente se vê no credenciamento — ele disse.

Marina olhou para a câmera, depois para ele.

— A gente acabou de transar no caminho, Caio. Você pode formular uma despedida menos administrativa.

Ele sorriu sem mostrar os dentes, aproximou-se apenas o suficiente para que a frase não atravessasse a calçada.

— Eu queria te beijar agora, mas tem três pessoas olhando e você ainda não decidiu se quer que elas saibam.

Marina olhou de relance. As autoras fingiam conversar. Um homem da produção conferia uma lista perto da porta. Um rapaz com crachá de imprensa tentava reconhecer alguém importante em todos os rostos. Ela poderia beijá-lo. Poderia também não dar ao festival uma cena antes mesmo de receber a chave do quarto. Escolheu uma terceira coisa: ajeitou a gola da camisa dele, cobrindo parcialmente a marca que tinha deixado na clavícula, e passou o polegar uma vez sobre o tecido.

— Boa decisão — ela disse. — Aprende rápido.

Antes que Caio respondesse, uma voz conhecida veio da recepção.

— Marina, que bom encontrar você logo na chegada.

Ernesto Valadares estava a menos de cinco metros, com uma mala pequena ao lado, camisa clara, livro debaixo do braço e o mesmo sorriso de homem que confundia abordagem com destino. Marina sentiu o corpo voltar inteiro para dentro da roupa. Caio ficou ao lado dela, quieto. A câmera pendia do ombro dele, desligada. Isso, naquele segundo, foi uma delicadeza melhor do que qualquer frase.

— Ernesto — Marina disse, puxando a alça da mala. — Espero que Paraty tenha farelo de bolo suficiente para nós dois.

Depois do Décimo Segundo

Sinopse

Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.

Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.

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