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Depois do Décimo Segundo

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Depois do Décimo Segundo

Capítulo 6 · Depois do Décimo Segundo

Depois das Dez

6 de 12 ≈ 23 min de leitura

A mesa de abertura começou com cinco minutos de atraso, três microfones falhando e uma fila de gente ainda tentando entrar pela lateral da tenda sem aceitar que o evento já estava cheio. Marina ficou sentada entre a mediadora e uma romancista argentina que cheirava a perfume caro e anotava coisas num caderno minúsculo, desses que pareciam impróprios para qualquer pensamento longo. À frente, as cadeiras de plástico rangiam, copos de vinho apareciam escondidos perto dos pés, celulares subiam e desciam em busca de um ângulo decente, e o ventilador grande preso na estrutura da tenda empurrava ar morno contra a primeira fileira sem aliviar ninguém. Ernesto estava na terceira fileira, não na primeira. Ela achou aquilo covarde e previsível. Ele tinha escolhido distância suficiente para observar, proximidade suficiente para ser notado, e uma posição quase frontal que permitiria a ele fingir neutralidade caso alguém olhasse.

Caio estava na lateral esquerda, perto de uma pilastra, com a câmera baixa. Marina percebeu antes de vê-lo de fato. Havia alguma coisa no corpo dela, talvez o resto da interrupção no quarto, talvez o hábito recente de procurá-lo sem admitir procura, que registrava a presença dele por alteração mínima de temperatura. Ele não fotografou enquanto ela ajeitava o microfone, nem quando a mediadora apresentava credenciais, nem quando a romancista argentina recebia aplausos por um romance que metade da plateia ainda não lera. Fotografou apenas quando Marina abriu a pasta e segurou a primeira página com as duas mãos. Um clique. Só um. Aquele limite tinha se tornado uma espécie de linguagem entre eles, e Marina odiou gostar disso justamente antes de falar sobre exposição.

A mediadora fez uma introdução cheia de palavras úteis e gastas: corpo, mercado, coragem, autoria, desejo, linguagem, fronteira. Marina ouviu com a atenção prática de quem espera a própria vez sem desperdiçar munição. Na terceira fileira, Ernesto apoiou o queixo na mão. Dois jornalistas cochichavam perto do corredor. Uma leitora com cabelo curto sorria para ela como se já tivesse escolhido lado antes da primeira frase. Quando enfim o microfone chegou, Marina aproximou a folha, olhou para o público e encontrou, por hábito ou vício, a lente de Caio abaixada.

— Na última vez que um homem tentou me explicar o obsceno, havia farelo de bolo na mesa e eu estava com vontade de ir embora — Marina disse, sem pressa.

O riso veio desigual. Algumas pessoas riram porque entenderam, outras porque perceberam que havia alguma coisa a entender, outras porque Paraty tinha essa etiqueta estranha de rir diante de frases que podiam virar citação em rede social. Ernesto não riu. Marina viu. Continuou.

— Hoje eu fiquei.

A tenda ficou mais quieta. Não num desses silêncios bonitos que pedem frase de contracapa, e sim no silêncio real de gente esperando para saber se podia relaxar ou se precisava se defender. Marina gostava desse segundo. Era curto, físico, quase palpável na garganta. Nele, a plateia ainda não tinha decidido se a autora seria espirituosa, agressiva, acadêmica, indecente ou administrável. Ela virou a página, embora não precisasse, só para ocupar as mãos.

— Quando uma mulher descreve a própria fome, sempre aparece alguém querendo chamar aquilo de sintoma, mercado ou excesso — ela disse. — Se a personagem diz que quer trepar, perguntam se a autora confessa. Se a personagem diz buceta, aparece alguém para perguntar se a palavra não poderia ser outra. Se a personagem diz que quer sentar na cara de um homem, sempre surge um leitor muito educado para explicar que o erotismo talvez funcione melhor no implícito.

O segundo riso veio mais alto. A romancista argentina virou o rosto para Marina com interesse verdadeiro. A mediadora ajeitou os papéis sem saber se sorria. Ernesto mudou a posição da mão no queixo. Caio fotografou uma vez. Marina viu pelo canto do olho, e o clique não a interrompeu. Pelo contrário, encaixou algo dentro dela. Não porque ele estivesse registrando sua melhor versão, e sim porque tinha entendido que o instante era dela antes de ser imagem.

Ela falou durante quinze minutos sem procurar resgate em citação. Usou exemplos de cartas de leitoras, perguntas absurdas em eventos, e-mails que começavam com elogio e terminavam perguntando se aquela cena tinha acontecido com ela. Falou de homens que suportavam assassinato, guerra, mutilação, traição e sadismo em romances canônicos, mas engasgavam quando uma mulher escrevia que queria um pau na boca sem transformar a frase em metáfora. Falou da diferença entre pornografia como categoria moral e pornografia como ferramenta de controle. Falou do direito de uma mulher escolher a palavra crua quando a palavra crua era a palavra certa. Não pediu desculpa por “buceta”, não substituiu “cu” por “ânus” para acalmar professor, não fingiu que “boquete” era menos literário que “memória” só porque uma vinha da cama e a outra da estante.

Quando terminou, recebeu aplausos fortes demais para serem apenas gentis. Marina não se levantou. Ficou sentada, bebendo água, sentindo a blusa vermelha colar um pouco nas costas. O corpo ainda tinha marcas da estrada, da pousada, da boca interrompida de Caio no quarto, e aquela mistura com a fala pública produzia uma lucidez difícil. Ela não tinha confessado nada. Também não tinha se escondido. Havia uma diferença entre as duas coisas, e boa parte da plateia talvez nunca conseguisse enxergar. A romancista argentina tocou o braço dela de leve.

— Você abriu uma porta perigosa — a mulher disse, em português lento.

— Já estava aberta — Marina respondeu. — Eu só parei de fingir que era parede.

A conversa seguiu com a mediadora tentando organizar a mesa sem deixar o assunto virar incêndio completo. A autora argentina falou de censura, uma poeta portuguesa falou de linguagem obscena como disputa de classe, e Marina ouviu com prazer raro, porque as duas não pareciam interessadas em limpar a cena para caber em jornal. Quando a rodada de perguntas começou, vieram três boas. Uma leitora perguntou sobre vergonha herdada. Um rapaz jovem perguntou, com timidez honesta, como escrever desejo sem transformar a personagem em vitrine. Uma professora perguntou sobre leitoras que procuravam na literatura hot não só excitação, mas autorização de vocabulário. Marina respondeu cada uma com cuidado. Quase se permitiu relaxar.

Então um homem no corredor levantou a mão sem esperar o microfone chegar.

— Marina, você acha possível separar a intensidade das suas cenas da sua experiência pessoal? — ele perguntou, projetando a voz como quem se julgava íntimo da própria pergunta.

A mediadora pediu que ele esperasse o microfone. Ele repetiu quando recebeu, agora com uma camada de educação aplicada por cima.

— Você trabalha com cenas bastante explícitas. Até que ponto a vida íntima da autora entra como matéria inevitável? Quero dizer, quando você usa palavras como pau, buceta, boquete, quando descreve uma mulher gozando, existe um limite entre criação e exposição pessoal?

Marina olhou para ele. Não conhecia. Camisa azul, barba irregular, pulseira de festival, expressão de quem achava ter feito a pergunta que todos queriam fazer. Ernesto estava imóvel na terceira fileira, satisfeito demais para fingir inocência. Caio abaixou a câmera. A mediadora começou a abrir a boca para aparar o constrangimento, mas Marina levantou dois dedos, pedindo o microfone de volta.

— Qual é o seu nome? — Marina perguntou.

— Renato.

— Renato, quando um autor descreve um assassinato, você pergunta se ele matou alguém?

A plateia riu. Renato também, pouco, tentando parecer cúmplice.

— Não nesse sentido.

— Quando um homem descreve guerra, traição, tortura ou um personagem bebendo até destruir a própria casa, você pergunta quantos litros ele bebeu, quantas pessoas traiu ou onde enterrou o corpo?

— Claro que não, mas sexo tem uma natureza diferente.

— Para quem?

Renato piscou. Marina esperou. A pergunta ficou pendurada entre eles com a grosseria necessária. Ele tentou sorrir, olhou para a mediadora, depois para a plateia, procurando alguma corda. Não encontrou rápido o bastante.

— Quero dizer que o sexo envolve exposição do corpo — ele disse.

— O corpo de quem? — Marina perguntou.

Dessa vez ninguém riu. Marina se inclinou um pouco para a frente, com o microfone perto da boca, e sentiu a mesa mudar de densidade. Não era raiva teatral. Era raiva organizada. A melhor espécie.

— Quando eu escrevo uma mulher dizendo que quer chupar um pau, você não está diante do meu corpo, Renato. Está diante de uma frase. A pergunta interessante seria por que você precisa imaginar meu corpo por trás dela para conseguir ler. Isso sim me interessa. Não por curiosidade sobre você, fique tranquilo. Por diagnóstico de leitura.

A tenda reagiu em ondas. Houve riso, aplauso, um murmúrio mais baixo, e um celular subiu na segunda fileira. Caio não fotografou. Marina percebeu e soube que aquilo tinha sido decisão. Renato passou o microfone adiante com pressa. Ernesto olhou para o próprio programa impresso, como se não tivesse nada a ver com a pergunta, embora Marina apostasse uma garrafa de vinho ruim que ele a comentaria depois em algum círculo com palavras mais compridas.

A mesa terminou vinte minutos depois, com aplauso, fila de autógrafos improvisada e várias pessoas querendo falar com Marina sobre coragem, palavra que ela suportava com dificuldade crescente. Caio se aproximou apenas quando a fila diminuiu. Trazia a câmera junto ao corpo, não como barreira, e o crachá meio torto na camisa. A marca na clavícula estava escondida. Marina reparou de novo, porque sua atenção era uma criatura pouco disciplinada.

— Você fotografou pouco — ela disse, enquanto assinava um exemplar.

— O suficiente.

— Isso é resposta de fotógrafo ou de homem tentando parecer misterioso?

— De homem que abaixou a câmera na hora certa.

Marina fechou o livro assinado, entregou à leitora e olhou para ele.

— Eu vi.

— Eu sei.

Antes que a conversa encontrasse alguma parte menos pública, a produtora apareceu com a agenda da noite: entrevista remanejada, jantar dos convidados, sessão “Depois das Dez” no casarão anexo e uma roda informal depois, agora com Ernesto confirmado como convidado extra. Marina ouviu tudo com uma educação que já tinha começado a rachar nas bordas. A sessão noturna era leitura de trechos explícitos. Não mesa, não palestra, não debate higienizado. Leitura. Voz e texto. Ela tinha escolhido uma cena do segundo livro, uma cena em que a protagonista mandava o amante ficar quieto enquanto ela usava a boca dele até gozar. A organização sabia. O público sabia mais ou menos. Ernesto, agora, saberia de perto demais.

O jantar foi uma sucessão de pratos pequenos, vinho branco morno e conversas interrompidas por gente querendo se apresentar. Marina comeu pouco. Sentou entre a poeta portuguesa e um editor que falava baixo demais para um lugar barulhento. Caio circulou pelo salão fotografando brindes, mãos, copos, risadas, placas com nomes, autores fingindo espontaneidade. Em nenhum momento fotografou Marina comendo. Ela percebeu todas as vezes em que ele passou perto e escolheu outra coisa. Aquilo foi se acumulando nela com mais força do que deveria. Ética, no corpo de um homem que ela desejava, era uma forma péssima de afrodisíaco. Péssima porque não passava.

Às dez e quinze, o casarão anexo estava cheio. Menos cadeiras, mais gente em pé, luz baixa, janelas abertas para a rua de pedra, cheiro de vinho, madeira velha, perfume e chuva recente. A sessão “Depois das Dez” tinha uma plateia diferente, menos preocupada em parecer correta. Pessoas riam antes do início, cochichavam, seguravam copos, aproximavam o corpo umas das outras. Marina gostou mais daquele ambiente. Havia menos verniz. Ainda havia pose, claro. Paraty era uma máquina sofisticada de pose. Mas, depois das dez, pelo menos a pose suava.

Ernesto ficou perto da parede, com uma taça na mão. Caio ficou do lado oposto, sem flash. Marina subiu ao pequeno tablado quando chamaram seu nome. Dessa vez não levou fala impressa. Levou o livro. Abriu na página marcada e olhou para a plateia antes de começar.

— Esta cena é entre dois adultos que sabem exatamente o que estão fazendo — Marina disse. — Aviso para quem gosta de fingir surpresa depois.

O riso veio mais solto. Ela baixou os olhos e leu. A voz no começo saiu controlada, quase fria, porque Marina não queria interpretar demais. O texto faria o serviço. A personagem entrava no quarto, mandava o homem sentar, abria a calça dele, segurava o pau, cuspia na cabeça e dizia que ele só podia tocar nela quando ela mandasse. Marina pronunciou “pau” sem baixar o volume, pronunciou “buceta” sem acelerar, pronunciou “boquete” como se a palavra tivesse o mesmo direito de estar ali que “janela” ou “travesseiro”. A plateia mudou de respiração. Esse era o dado que nenhuma crítica conseguia registrar direito: o corpo coletivo reagindo à palavra crua quando ela vinha de uma mulher que não pedia desculpa.

Ela leu a parte em que a personagem chupava o amante devagar, parava antes de ele gozar, sentava no rosto dele e guiava a língua pelos próprios gemidos. Leu o trecho em que a personagem dizia “chupa minha buceta como se tivesse entendido alguma coisa hoje” e ouviu uma mulher rir alto no fundo, um riso de reconhecimento, não de deboche. Marina quase sorriu, mas continuou. Quando chegou ao orgasmo da cena, diminuiu a velocidade. Não adoçou. Não teatralizou. Leu a frase em que a personagem gozava segurando a nuca do homem, com a voz quebrada e a vontade inteira, e fechou o livro antes da penetração que vinha depois.

O aplauso demorou meio segundo a mais do que deveria. Depois veio forte, com assobios discretos, risadas, alguém dizendo “caralho” perto da janela. Marina agradeceu, desceu do tablado e sentiu o próprio corpo responder à leitura como se parte da cena tivesse acontecido em sua pele. Não era excitação simples. Era memória, exposição, controle e a presença de Caio do outro lado da sala, olhando para ela sem levantar a câmera. Ele tinha entendido de novo. Havia momentos em que a imagem seria roubo, mesmo autorizada. A ausência de foto, ali, foi quase um toque.

Ernesto se aproximou enquanto ela aceitava uma taça de vinho.

— Você sabe produzir efeito — ele disse.

— Boa noite para você também.

— Não digo como crítica. Como constatação. A plateia reage ao vocabulário antes de reagir à construção.

— Talvez porque a plateia ainda esteja viva.

— Ou porque o vocabulário explícito oferece uma falsa sensação de liberdade.

Marina bebeu um gole. O vinho era ruim do jeito esperado, ácido, insistente, sem coragem de virar vinagre.

— Você conseguiu ouvir uma mulher lendo uma cena de prazer e saiu preocupado com falsa liberdade. Isso deve cansar.

— Eu me preocupo com mercado, Marina. Com o modo como a transgressão vira embalagem.

— Eu me preocupo com homens que usam a palavra mercado para não admitir que ficaram duros.

Ernesto congelou por uma fração pequena. Pequena, mas suficiente. Marina viu os dedos dele apertarem a taça. Viu também Caio se mover no canto do salão, não se aproximando ainda, apenas mudando de lugar para enxergar melhor. Ernesto recuperou o sorriso quase todo.

— Você gosta de reduzir discordância a reação corporal.

— Não. Eu gosto de lembrar que reação corporal existe, inclusive em crítico.

— Isso é uma acusação?

— É uma gentileza. Acusação teria mais detalhes.

A conversa poderia ter continuado, e talvez Ernesto quisesse isso, porque havia nele uma espécie de tesão pela própria humilhação quando ela vinha com plateia pequena. Marina não pretendia alimentá-lo de graça. Entregou a taça vazia numa mesa lateral e passou por ele. Caio encontrou seu caminho perto da varanda, onde a luz era mais baixa e o barulho da rua entrava com menos força.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Essa pergunta tem quantas camadas?

— Três, talvez quatro.

— Escolhe uma.

— A mais simples. Você está bem?

Marina olhou para a sala. A poeta portuguesa falava com a romancista argentina. Renato, o homem da pergunta, evitava olhar para ela. Ernesto conversava agora com um editor, provavelmente reconstruindo a própria dignidade com termos abstratos. A produtora ria de alguma coisa perto da porta. Caio estava a menos de um passo, com a câmera pendurada e as mãos livres.

— Estou com raiva, excitada, cansada e sem vontade de ser educada pelo resto da noite — Marina disse.

— Isso é bem?

— Para mim, hoje, é operacional.

Caio assentiu. Não tentou tocar. Marina queria que ele tentasse. Queria também que não tentasse. O impasse durou até ela pegar a mão dele e puxá-lo pela varanda, descendo dois degraus para um corredor lateral do casarão. Havia uma porta entreaberta para uma sala menor, usada como depósito temporário de cadeiras dobráveis, caixas de som e banners enrolados. Marina entrou primeiro. Caio veio atrás e fechou a porta sem trancar.

— Tranca — ela disse.

Ele trancou.

A sala tinha cheiro de poeira, papelão e madeira úmida. Uma lâmpada fraca ficava acesa perto de uma pilha de cadeiras. O barulho da sessão chegava abafado, como se o casarão tivesse engolido a noite e deixado só a parte útil para eles. Marina largou o livro sobre uma caixa, virou para Caio e segurou a câmera.

— Tira isso.

Caio passou a alça pela cabeça e colocou a câmera sobre a caixa ao lado do livro.

— Agora você — Marina disse.

— Eu o quê?

— Ajoelha e termina o que começou no quarto.

Caio ajoelhou sem resposta esperta. Marina levantou a blusa vermelha até a cintura, abriu a calça e desceu o tecido junto com a calcinha até o meio das coxas. Estava molhada. Não havia motivo para fingir surpresa: a leitura, a raiva, Ernesto, a pergunta de Renato, a câmera abaixada de Caio, tudo tinha ido parar ali. Caio olhou por um segundo, só um, antes de aproximar a boca. Marina segurou a nuca dele com força.

— Sem delicadeza de festival — ela disse. — Chupa.

Ele chupou. A língua veio direta no clitóris, depois desceu para a entrada, depois voltou com pressão. Marina apoiou uma mão na parede e a outra no cabelo dele. A parede estava fria e suja de pó. A calça prendia suas pernas, limitando os movimentos, deixando tudo mais urgente. Caio enfiou dois dedos nela e Marina mordeu o próprio punho para não gemer alto demais. Aquilo não era quarto de hotel, não era pousada, não era cama. Era uma sala trancada num casarão cheio de escritor, crítico, editora, fotógrafo e gente falando de literatura a poucos metros. O risco pequeno deixava a buceta dela mais molhada, e ela não estava com paciência para julgar isso.

— Isso — ela sussurrou. — Assim. Não para.

Caio segurou uma das coxas dela, abriu o que a calça permitia e chupou com mais força. Marina sentiu o prazer subir rápido, menos bonito que necessário, vindo de um dia inteiro de contenção e frase pública. Ele sabia agora onde insistir. A boca dele sugava, a língua pressionava, os dedos entravam e curvavam, e cada parte trabalhava como se tivesse recebido ordem separada. Ela puxou o cabelo dele, empurrando a boca contra si, e ele gemeu baixo, o som abafado pela buceta dela.

— Eu li aquela cena pensando nisso — Marina disse, quase sem ar. — Na sua boca. Em você ajoelhado enquanto eles aplaudiam.

Caio respondeu com a língua, porque a boca estava ocupada e porque qualquer frase seria desperdício. Marina fechou os olhos. Ouviu uma risada do outro lado da parede, passos no corredor, um copo caindo em algum lugar distante. O orgasmo veio com uma violência curta. Ela gozou segurando a cabeça dele, o quadril tremendo contra a boca, a voz presa na garganta para não atravessar a madeira da porta. Caio continuou até ela empurrá-lo pelo ombro, sensível demais, respirando como se tivesse subido uma ladeira.

Ele levantou devagar, limpando a boca com as costas da mão. Marina olhou para aquilo e sentiu outra onda de desejo, agora mais baixa, mais vulgar.

— Você quer gozar? — ela perguntou.

— Quero.

— Aqui?

— Aqui.

Marina fechou a calça só o bastante para conseguir se mover, empurrou Caio contra a parede e abriu o cinto dele. A mão dela encontrou o pau duro por baixo da cueca, quente, pesado, impaciente. Ela o puxou para fora e se ajoelhou no chão empoeirado, sem se importar com a calça, com a blusa cara, com a possibilidade ridícula de alguém bater na porta. Passou a língua pela cabeça, sentiu o gosto de pele e sal, e colocou na boca. Caio apoiou uma mão na parede e a outra no cabelo dela.

— Pode segurar — Marina disse, tirando o pau da boca por um instante. — Só não empurra se eu não deixar.

— Eu sei.

— Sabe mesmo.

Ela voltou a chupá-lo. Dessa vez não provocou muito. Não havia tempo, e a falta de tempo deixava o boquete mais bruto. Marina usou a boca e a mão, descendo até onde conseguia, subindo com saliva, apertando a base, ouvindo a respiração dele quebrar. Caio tentou ficar quieto. Falhou pouco, o suficiente para ela sentir prazer em cada ruído. Quando ele estava perto, ela não parou. Olhou para cima, manteve a boca na cabeça do pau e masturbou mais rápido.

— Goza — ela disse, com a língua molhada nele. — Quero você gozando na minha boca antes que alguém venha procurar cadeira.

Caio gozou com um som baixo, segurando o cabelo dela sem puxar, o corpo tensionado contra a parede. Marina recebeu na boca, engoliu parte, deixou o resto marcar a língua e limpou a ponta com um beijo lento, indecente, antes de guardar o pau dele de volta na cueca. Levantou com ajuda dele, passou o polegar no canto da boca e sorriu como quem acabara de vencer uma discussão que ninguém sabia que estava acontecendo.

— Agora você pode voltar a ser fotógrafo oficial — ela disse.

— E você?

— Eu vou voltar a ser autora perigosa por mais quarenta minutos.

Caio pegou papel em uma caixa aberta, limpou a própria mão, depois ofereceu outro pedaço a ela. Marina aceitou. Recompuseram-se em silêncio, aquele silêncio prático de gente que não quer transformar sexo em interpretação antes de sair da sala onde ele acabou de acontecer. Ela ajeitou a blusa vermelha, prendeu o cabelo, conferiu o batom na tela escura do celular. Estava borrado no canto. Limpou com o dedo, sem perfeição. Caio recolocou a câmera no ombro e destrancou a porta.

Antes de saírem, Marina segurou o pulso dele.

— Nenhuma foto minha agora.

— Nenhuma.

— Nem se eu parecer brilhante, destruída ou rentável.

— Principalmente se parecer.

Marina soltou o pulso dele. A resposta foi boa. Boa demais, de novo. Saíram separados por trinta segundos. Ela voltou primeiro ao salão, pegou uma taça de água e ouviu a poeta portuguesa terminando uma história sobre censura numa biblioteca pública. Caio entrou depois, pela lateral, sem olhar direto para ela. Ernesto, do outro lado da sala, olhou para os dois em momentos diferentes. Talvez não soubesse. Talvez soubesse o suficiente para inventar. Marina sentiu a possibilidade do rumor como uma corrente de ar na nuca.

Mais tarde, já perto da meia-noite, quando a sessão começava a se desfazer em grupos menores, Ernesto passou por ela com a taça vazia e disse, baixo o bastante para só ela ouvir:

— Você confia muito no olhar dele.

Marina virou o rosto. Caio estava longe, fotografando a mesa de livros, sem perceber. Ernesto não olhava para Caio; olhava para ela.

— Você confunde confiança com autorização — Marina disse.

— Às vezes a diferença só aparece depois da publicação.

Ele saiu antes que ela respondesse. Marina ficou parada, sentindo a frase chegar aonde ele queria: não como ameaça explícita, e sim como semente ruim. O salão ainda ria, bebia, comentava a leitura, pedia fotos, abraços, assinaturas. Ela olhou para Caio. Ele levantou a câmera para fotografar os livros, hesitou, baixou um pouco o equipamento e mudou de ângulo para não pegar uma autora exausta sentada atrás da mesa. O gesto era dele. A frase de Ernesto também. Entre uma coisa e outra, Marina sentiu o próximo problema abrir os olhos.

Depois do Décimo Segundo

Sinopse

Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.

Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.

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