Universo da obra
Universo da obra
Às sete e dez da noite, a foto já tinha deixado de ser foto. Marina percebeu isso sentada na cama do quarto, com o celular na mão, a mochila ainda aberta no chão e Caio parado perto da varanda como alguém que também via o incêndio se formar, embora ainda não soubesse se tinha fósforo no bolso. O link do Palavra Aberta fora compartilhado por três pessoas em menos de meia hora, depois por uma página de literatura hot com legenda entusiasmada, depois por um perfil de crítica cultural que usava ironia como quem passa álcool numa ferida que não é sua. A imagem principal seguia a mesma: Marina com o microfone na mão, batom escuro, o rosto inclinado na direção de Ernesto, a boca capturada no instante exato em que parecia pronta para cortar. Ao fundo, Ernesto sorria desfocado. A composição era limpa, forte, quase bonita. Esse era o insulto. Se fosse uma foto ruim, seria mais fácil odiar sem nuance.
O primeiro compartilhamento dizia: “Autora hot enquadra crítico ao vivo em Paraty.” O segundo: “Quando a ficção erótica responde à academia.” O terceiro, pior, vinha de um perfil com muitos seguidores e pouco compromisso com contexto: “Marina Azevedo prova que sabe performar exatamente o mercado que diz criticar.” Embaixo, comentários se multiplicavam com aquela velocidade meio oleosa das pessoas que querem participar de um corpo sem ter de encará-lo. Havia mulheres defendendo Marina, homens chamando-a de agressiva, leitores pedindo link dos livros, gente perguntando se ela escrevia “putaria de qualidade”, um professor dizendo que Ernesto tinha razão sobre captura mercadológica e um sujeito com foto de paisagem querendo saber se ela era “assim na vida real”. Marina leu até sentir vontade de arremessar o celular na parede. Não arremessou porque ainda precisava dele para trabalhar, responder e sofrer com eficiência.
— Você sabia que seria essa foto — ela disse.
Caio não perguntou qual. Estava olhando para a tela do próprio celular, onde a matéria aparecia aberta.
— Eu sabia que era a mais forte da Paula.
— Não foi isso que eu disse.
Ele levantou o rosto. A luz da varanda deixava metade dele mais escura, e Marina odiou que uma parte de sua cabeça ainda registrasse enquadramento num momento em que queria apenas raiva.
— Eu não sabia que escolheriam essa como principal — Caio disse.
— Mas sabia que ela existia. Sabia que era boa. Sabia que era clique. Sabia que me deixava sozinha na cena.
— Sim.
A honestidade dele chegou sem defesa, e isso não ajudou. Marina queria uma mentira fácil para rasgar. Recebeu um sim limpo, e o sim limpo abria outro tipo de ferida. Ela ficou de pé, andou até a escrivaninha, pegou a garrafa metálica do festival, bebeu água morna e viu o reflexo do próprio rosto na janela. O batom da foto já não estava ali; ela tinha limpado depois da mesa. A pessoa do reflexo parecia menos afiada, mais cansada, talvez mais perigosa por isso.
— E você não achou que valia me dizer antes? — ela perguntou.
— Eu disse que ela tinha uma foto forte.
— “Forte” é uma palavra covarde quando você sabe exatamente o que a imagem faz.
Caio guardou o celular no bolso. A câmera dele estava dentro da mochila, fechada, obediente demais para aquele quarto. Marina olhou para a mochila como se ela pudesse responder por ele.
— Eu tentei conseguir contexto — ele disse. — Mandei as minhas fotos. Você mandou a frase. A matéria não ficou destruída.
— Que generoso da matéria não me destruir por completo.
— Marina.
— Não fala meu nome como se estivesse me segurando pelo cotovelo.
Ele fechou a boca. Bom. Péssimo. Marina precisava que ele falasse para poder brigar, e precisava que calasse para não piorar. O quarto ficou pequeno com os dois em pé. Do lado de fora, a noite de Paraty começava a fazer barulho de jantar, sandália na pedra, copo, risada de gente que tinha acabado de descobrir que um festival literário também servia para paquerar com vocabulário melhor. No celular, outra notificação. Júlia: “Está circulando. Não responde mais nada hoje. Me liga se precisar.” Depois: “E onde está Caio nessa história?” Marina bloqueou a tela antes de decidir se responderia.
— Ele falou isso ontem — Marina disse.
— Quem?
— Ernesto. Que a diferença entre confiança e autorização às vezes aparece depois da publicação.
Caio ficou imóvel.
— Ele disse isso para você?
— Depois da sessão. Passou por mim como quem deixava um cartão de visita dentro de um copo sujo.
— Por que você não me contou?
Marina riu sem humor.
— Olha que pergunta bonita. Você quer mesmo colocar “por que você não me contou” no centro disso?
— Não. Quero saber em que tabuleiro ele está jogando.
— No mesmo de sempre. O tabuleiro em que eu viro peça, você vira lente e ele vira analista do desastre que ajudou a montar.
Caio passou a mão pelo rosto. Marina percebeu a tensão no maxilar, os olhos procurando uma saída prática, talvez Paula, talvez o editor, talvez Ernesto. Ela conhecia aquele impulso masculino de resolver o exterior quando o interior estava impossível. Em outra circunstância, talvez aceitasse. Naquele momento, parecia tarde, ou pequeno, ou ambos.
— Eu posso falar com o portal — ele disse.
— Para quê?
— Pedir troca de foto principal. Eles têm contexto. Podem usar a mesa inteira.
— Agora? Depois que já circulou?
— Sim.
— E você acha que isso apaga o quê? O print? A legenda? O comentário do professor? O cara perguntando se eu sou assim na vida real?
— Não apaga. Mas reduz a continuação.
Marina olhou para ele por tempo suficiente para sentir a raiva mudar de lugar. Caio não estava errado. Esse era o problema recorrente: ele raramente estava errado de modo completo. A utilidade dele aparecia justamente quando ela queria descartá-lo como parte do problema. Mesmo assim, alguma coisa nela se recusava a deixá-lo sair em missão antes de encarar o ponto mais fundo.
— Você gosta dessa foto? — ela perguntou.
Caio respirou pelo nariz.
— Como fotógrafo, sim.
— Como homem que me comeu ontem numa sala trancada?
— Não responde à mesma pergunta.
— Responde sim.
Ele olhou para a mochila, depois para ela. Não fugiu.
— Como homem que estava com você ontem, a foto me incomoda.
— Porque me expõe?
— Porque faz você parecer sozinha numa coisa que não aconteceu sozinha.
A frase bateu onde devia. Marina odiou por alguns segundos, porque era boa, e porque talvez fosse exatamente o que ela vinha tentando dizer sem encontrar a alavanca. A foto não mentia sobre sua força, mas mentia sobre a cena. Tirava a mesa, o método de Ernesto, a covardia do mediador, o mercado que adorava transformar conflito em retrato de mulher intensa, a presença de Caio escolhendo não usar outra imagem. Deixava Marina como combustão, como ele dissera. Uma mulher queimando sozinha.
— E você deixou — ela disse, mais baixo.
— Eu não escolhi a foto.
— Não. Você viu a engrenagem e achou que contexto bastava.
Caio assentiu devagar, como se a frase tivesse entrado e encontrado lugar. Marina não queria que ele assentisse. Queria que se defendesse mal. Queria a facilidade suja de uma briga comum. Ele não deu.
— Talvez eu tenha achado — ele disse.
O celular dela vibrou de novo. Dessa vez era a produtora: “Marina, repercussão ótima da mesa. A organização queria saber se você topa participar amanhã cedo de um debate-relâmpago sobre literatura hot e crítica, com Ernesto e Lucía. Seria gravado.” Marina leu duas vezes. Depois mostrou a tela a Caio. Ele fez a menor careta possível.
— Não — ele disse.
— Não?
— Minha opinião, se você quiser.
— E se eu não quiser?
— Continua sendo não, mas menos útil.
Marina quase sorriu. Quase, e isso a enfureceu por outro caminho. Digitou para a produtora: “Não. Minha agenda amanhã segue como combinada.” Ficou olhando para a mensagem antes de enviar. Mandar aquilo parecia pequeno demais diante da máquina; também parecia a primeira coisa limpa do dia. Enviou. A resposta veio com três pontos, sumiu, voltou: “Entendido. Obrigada.” Marina colocou o celular sobre a cama.
— Você vai falar com o portal — ela disse.
— Vou.
— Sem me transformar em mulher difícil nos bastidores.
— Falo como fotógrafo creditado que ofereceu imagens de contexto e acha a seleção principal editorialmente pobre.
— Isso é quase sexy.
— Quase?
— Não se anima. Estou puta.
— Eu reparei.
O ar entre eles mudou, não para aliviar, mas porque a palavra “sexy” tinha entrado como uma faísca onde ainda havia álcool no chão. Marina percebeu no mesmo instante em que Caio percebeu. O corpo dela era um traidor antigo. Raiva e tesão vinham de salas vizinhas, às vezes pela mesma porta. Ele continuou parado. Ela foi até a cama, pegou o celular e o entregou a ele.
— Liga.
Caio ligou para Tiago, do portal, usando o telefone dela porque o contato estava ali. Falou em pé, perto da janela, com voz profissional, educada, sem bajulação. Disse que a foto principal recortava a discussão como embate pessoal e reduzia a complexidade da mesa; disse que havia imagens de contexto com crédito autorizado; disse que a legenda poderia destacar crítica, mercado e autoria sem transformar Marina em personagem de briga. Ouviu bastante. Marina acompanhou cada “entendo”, cada pausa, cada “não estou pedindo apagamento de cobertura”. A mão dele mexia pouco enquanto falava. Ele tinha uma calma que a irritava e, naquela hora, a protegia.
Quando desligou, devolveu o celular.
— Vão trocar?
— Talvez. Ele vai falar com o editor.
— Talvez é uma palavra indecente.
— Muito usada no mercado.
— Não faz humor de fotógrafo arrependido.
— Está bem.
Marina pegou o celular e jogou de volta na cama. Depois empurrou Caio contra a parede com as duas mãos. O gesto saiu antes de qualquer decisão racional, e ele recebeu o impacto sem tentar transformar aquilo em convite automático. Ela segurou o rosto dele, beijou-o com raiva, mordeu a boca dele até sentir a respiração mudar. Caio manteve as mãos abertas ao lado do corpo por um segundo, esperando. Marina pegou uma delas e colocou na própria cintura.
— Agora pode tocar — ela disse.
Ele tocou. Segurou a cintura dela, depois as costas, trazendo-a para perto sem esmagar. Marina sentiu o pau dele endurecer contra sua barriga e gemeu de irritação dentro do beijo, porque o corpo dele respondia rápido, porque o dela também, porque nada disso resolvia a foto e ainda assim abria uma válvula. Ela puxou a camisa dele para fora da calça, passou as unhas pela barriga, desceu até o cinto e parou.
— Isso não é perdão — ela disse, com a boca na dele.
— Eu sei.
— Não é prêmio.
— Eu sei.
— Então o que é?
Caio não respondeu com frase bonita. Levou a mão dela ao próprio peito, onde o coração batia forte o bastante para quebrar um pouco a pose.
— É você decidindo o que fazer com a raiva agora.
Marina fechou os olhos por um segundo. A resposta era perigosa porque devolvia a ela o comando sem limpá-lo. Ela abriu o botão da calça dele, puxou o zíper, enfiou a mão na cueca e segurou o pau duro. Caio soltou o ar perto do rosto dela. Marina masturbou devagar, olhando para ele.
— Eu devia mandar você embora — ela disse.
— Talvez.
— Devia fazer você dormir com sua câmera no corredor.
— A câmera não merece.
— Você está fazendo piada enquanto eu seguro seu pau?
— Estou tentando continuar vivo.
Ela riu. Um riso curto, contra a própria vontade, e o riso a enfureceu de novo, desta vez menos. A mão apertou um pouco mais. Caio fechou os olhos. Marina gostou da rendição física, mas algo nela não queria terminar ali, na facilidade do corpo dele cedendo. Soltou o pau, deu um passo para trás e apontou para a porta.
— Vai resolver a foto.
Caio abriu os olhos.
— Agora?
— Agora.
— E depois?
— Depois eu decido se você entra de novo.
Ele ajeitou a calça com uma lentidão que não parecia provocação, talvez porque qualquer provocação naquele segundo pudesse fazê-la cumprir a ameaça. Pegou a mochila, deixou a câmera dentro, olhou para ela uma última vez antes de sair.
— Eu volto com alguma coisa verificável — ele disse.
— Melhor voltar com menos frase e mais resultado.
Quando a porta fechou, Marina ficou sozinha com a própria respiração alta demais. Sentou na cama, depois levantou, depois abriu a janela, depois fechou porque a rua fazia barulho. O celular vibrou outra vez. Júlia ligando. Marina atendeu.
— Fala que você está longe de objeto cortante — Júlia disse.
— Estou perto de um vaso de flor artificial.
— Serve como arma psicológica.
— A foto está horrível.
— A foto está ótima, por isso está horrível.
Marina fechou os olhos. Júlia, como sempre, tinha a gentileza brutal de não fingir.
— Ele sabia — Marina disse.
— Caio?
— Que a foto era forte. Que me deixava sozinha.
— Ele escolheu?
— Não.
— Ele publicou?
— Não.
— Ele avisou?
Marina ficou quieta.
— Mais ou menos.
— Mais ou menos costuma ser o lugar onde homem monta barraca.
— Ele está tentando trocar a foto.
— Bom.
— Você está defendendo ele?
— Estou defendendo a realidade, o que é sempre ingrato.
Marina deitou de costas na cama, olhando para o teto. A conversa com Júlia durou vinte minutos. Falou da matéria, de Ernesto, da proposta de debate-relâmpago, da resposta negativa, da sensação de que tudo que ela dizia nascia com dentes e era vendido depois como sorriso. Júlia ouviu, interrompeu pouco, pediu prints, mandou que Marina não postasse nada até de manhã e disse que a melhor resposta pública talvez fosse o texto principal dela, não uma nota reativa. Marina concordou sem entusiasmo. Antes de desligar, Júlia perguntou:
— E o fotógrafo?
— O que tem?
— Você quer que ele fique porque ele é útil ou porque ele está ficando?
Marina passou a mão pelo rosto.
— Hoje eu não tenho maturidade para essa pergunta.
— Então não responda hoje. Só não transe usando a pergunta como mordaça.
— Júlia.
— Eu conheço minha autora.
Marina desligou chamando-a de insuportável. Depois abriu o link da matéria de novo. A foto principal ainda era a mesma. Atualizou. A mesma. Atualizou de novo, odiando a si mesma. A matéria piscou, recarregou e mudou. Agora a imagem principal mostrava a mesa inteira: Ernesto falando ao microfone, a professora ao lado, o editor consultando notas, o mediador atento, parte da plateia. Marina aparecia na lateral da terceira fileira, pequena, com o microfone ainda no colo, não apagada, não isolada. A foto antiga continuava na galeria, mas não abria mais o texto. A legenda nova dizia: “Mesa discutiu mercado, crítica e autoria na literatura erótica contemporânea.” Era menos brilhante. Era melhor.
Caio mandou mensagem no mesmo instante: “Trocaram.”
Marina escreveu: “Vi.”
Ele digitou. Parou. Digitou de novo. “Posso subir?”
Marina olhou para a porta. O quarto parecia diferente agora, não resolvido, mas menos sequestrado. A foto ainda existia, os comentários ainda existiam, Ernesto ainda existia com sua frase suja sobre publicação. Caio também existia, e a diferença era que, desta vez, tinha voltado com resultado antes de pedir entrada.
“Pode”, ela escreveu. “Bate uma vez. Se eu não responder, espera.”
Ele bateu oito minutos depois, uma vez. Marina abriu. Caio estava com o cabelo úmido de suor, a camisa amassada e a mochila no ombro. Não sorriu. Isso foi bom.
— Obrigada — ela disse.
— De nada.
— Ainda estou puta.
— Eu sei.
— Entra.
Ele entrou. Marina fechou a porta, mas não trancou. Ficaram parados perto da cama. A tensão sexual que tinha sido interrompida antes voltava diferente, menos explosiva, mais atravessada por cansaço e cuidado. Marina não queria repetir a cena da parede. Não queria transformar resultado em moeda de cama. Também não queria fingir que não desejava o homem à sua frente com uma insistência quase inconveniente.
— Tira a roupa — ela disse.
Caio ergueu os olhos.
— Tem certeza?
— Tenho. Eu quero olhar para você sem câmera, sem portal, sem legenda e sem essa camisa fingindo estabilidade.
Ele tirou a mochila, depois a camisa, depois os sapatos. Marina sentou na beirada da cama e observou. Havia marcas nela ainda, marcas dele, marcas do festival que não apareciam na pele. Caio tirou a calça e ficou de cueca, o pau já duro, contido pelo tecido. Marina não se levantou. Apontou para o espaço diante dela.
— Aqui.
Ele parou à frente dela. Marina passou a mão pela barriga dele, pela linha da cueca, pelo volume. Não puxou de imediato. Só tocou, sentindo a respiração dele mudar.
— Hoje eu não quero performance — ela disse.
— Está bem.
— Não quero frase boa.
— Está bem.
— Não quero gozar para esquecer essa merda.
— Então para que você quer?
Marina olhou para cima.
— Para lembrar que nem tudo que me olha me toma.
Caio ficou muito quieto. Ela puxou a cueca dele para baixo, segurou o pau e beijou a cabeça uma vez, sem começar um boquete. Depois levantou, tirou a própria blusa, abriu a calça, deixou tudo cair com mais cansaço que pressa. Caio não tocou até ela pegar as mãos dele e colocá-las em seus seios. O toque veio cuidadoso, quase reverente demais.
— Menos cerimônia — Marina disse. — Ainda sou eu.
Ele apertou com mais firmeza, beijou o pescoço dela, desceu a boca até os seios. Marina fechou os olhos, sentindo o corpo responder sem o golpe da raiva. Era outro tipo de tesão, mais lento, menos útil para briga. Isso a assustou um pouco. Empurrou Caio para a cama, pegou uma camisinha na bolsa e entregou a ele. Montou sobre ele depois que se protegeu, segurou o pau pela base e sentou devagar, com os olhos nos dele. Não havia pressa, nem quarto feio, nem sala trancada, nem risco de alguém bater. Só o encaixe, a buceta recebendo o pau aos poucos, a respiração dos dois ajustando um ritmo que não precisava provar nada para ninguém.
Marina começou a se mover devagar. Caio segurou sua cintura, não guiando, apenas acompanhando. Ela apoiou as mãos no peito dele e sentiu o corpo dele sob as palmas: quente, vivo, ali. A palavra “ali” pareceu mais importante do que qualquer palavra obscena naquele instante, embora o obsceno estivesse todo presente, o pau dentro dela, a umidade, a pressão, os gemidos baixos, a camisinha brilhando quando ela subia um pouco e descia de novo. Caio não falou. Marina tinha pedido silêncio, e ele finalmente entendeu que silêncio também podia ser ação.
Quando o prazer começou a subir, ela acelerou pouco. Não queria violência. Queria constância. Caio levou uma mão ao clitóris dela, perguntou com os olhos, e Marina assentiu. Ele tocou do jeito certo, em círculos pequenos, enquanto ela cavalgava mais fundo. O orgasmo veio sem espetáculo, com a testa dela baixando até encostar na dele, o corpo contraindo, a voz escapando num som curto que parecia mais verdade que triunfo. Caio segurou o ritmo até ela respirar de novo, depois a puxou para perto e gozou dentro da camisinha com um gemido baixo no ombro dela.
Ficaram juntos, ainda encaixados, por alguns segundos que não pediram frase. Depois Marina saiu de cima, deitou ao lado dele e olhou para o celular virado para baixo sobre a mesa. Nenhuma notificação visível. Nenhuma foto nova. Nenhum corte. Só o quarto, o suor, a cidade do lado de fora e Caio respirando ao lado dela sem procurar a câmera.
— Amanhã isso continua — ela disse.
— A repercussão?
— Tudo.
— Eu fico.
Marina virou o rosto para ele.
— Não fala como promessa. Amanhã eu verifico.
Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.
Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.
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