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Depois do Décimo Segundo

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Depois do Décimo Segundo

Capítulo 10 · Depois do Décimo Segundo

Sem Lente

10 de 12 ≈ 19 min de leitura

Caio passou a noite no térreo do hotel, primeiro numa poltrona de couro rachado perto da recepção, depois encostado ao balcão do café vazio, depois do lado de fora, sob o toldo estreito que protegia mal da chuva fina. Não ficou ali por romantismo. Romantismo teria mandado subir com flores, mensagem longa, pedido de desculpa bem escrito ou alguma outra forma elegante de piorar. Ficou porque o corpo não aceitava o quarto, porque a frase de Marina na escada de serviço continuava voltando com uma precisão que nenhuma defesa atravessava: “Eu acredito em você. E ainda assim eu me sinto usada pela cena inteira, e você está dentro dela.” Ele tinha ouvido acusações piores na vida, de editores, clientes, ex-mulheres, autores que odiavam as próprias fotos porque elas mostravam a idade real do pescoço. Nenhuma o tinha deixado tão sem equipamento.

Às três e vinte, abriu o notebook numa mesa perto da tomada e começou a descarregar os cartões de memória do festival. Não precisava fazer aquilo naquela hora, mas precisava olhar para o que tinha visto. As pastas se abriram por data, mesa, bastidor, leitura, jantar, corredores. Havia fotos boas, fotos úteis, fotos que a organização pediria, fotos que algum editor escolheria porque davam a ilusão de evento cheio e relevante. Havia Marina no palco, mas sempre larga; Marina de costas no corredor, mas pequena e contextual; Marina na mesa de Ernesto, microfone no colo, mas sem o rosto oferecido ao corte. Havia também Ernesto em vários momentos: falando, sorrindo para jornalistas, olhando para Marina quando achava que ninguém fotografava, conversando com Paula Antunes no canto da tenda depois da mesa, celular na mão, rosto inclinado sobre a tela dela.

Caio parou nessa sequência. Ampliou. Não era prova de crime, nem revelação dramática. Era pior em sua banalidade. Paula mostrava a câmera, Ernesto olhava, o homem de camisa jeans ao lado sorria, e na tela pequena aparecia a foto de Marina com o microfone. Na imagem seguinte, Ernesto falava alguma coisa para Paula. Na terceira, o homem de camisa jeans apontava para a tela. Na quarta, Ernesto tinha o sorriso de quem já sabia que a foto funcionaria. Caio ficou olhando. Ele não tinha notado aquilo na hora porque estava falando com outra pessoa, porque a tenda estava cheia, porque sempre havia um motivo profissional para não estar no lugar onde deveria. A foto não provava que Ernesto escolhera a imagem. Provava que ele vira antes, comentara antes, participara do gosto pela imagem antes de publicar stories sobre resistir à sedução do escândalo.

Às quatro e oito, Caio fez cópias em duas pastas diferentes, exportou os arquivos com metadados, separou seis imagens da sequência e escreveu um e-mail para si mesmo com hora, contexto e nomes. Não enviou para Marina. Essa foi a primeira decisão difícil da madrugada. A vontade imediata era mandar tudo, como quem oferece prova de utilidade e pede reentrada pelo anexo. Não mandou. Marina tinha pedido “hoje não”. A obediência, desta vez, não podia ser a versão confortável do respeito. Precisava virar outra coisa.

Às cinco, escreveu para Paula. “Preciso falar com você cedo sobre a sequência da mesa de ontem. Não é fofoca. É uso editorial e contexto.” Ela respondeu às seis e doze: “Já imaginava. Café às oito?” Caio aceitou. Dormiu quarenta minutos sentado, acordou com dor no pescoço e a sensação de ter envelhecido em baixa resolução. Às sete e meia, subiu ao quarto, tomou banho frio, vestiu camisa limpa e deixou a câmera sobre a cama. Ficou olhando para ela antes de sair. Era ridículo culpar um objeto. Também era ridículo fingir que o objeto não organizava sua covardia com eficiência. Pegou apenas o notebook e o cartão duplicado.

Paula estava na varanda do café com duas xícaras, cabelo raspado ainda úmido, colete preto pendurado na cadeira e cara de quem já entrara em conversas piores antes das oito. Não se desculpou. Caio agradeceu por isso em silêncio. Desculpa precoce muitas vezes vinha só para controlar o dano antes de nomeá-lo.

— Você viu a foto principal antes de mandar para o Tiago — Caio disse, sentando.

— Vi.

— Ernesto também.

Paula pegou a xícara, bebeu e olhou para a rua.

— Ele estava do lado.

— Ele comentou?

— Comentou que era a imagem da mesa.

— Da mesa ou dela?

Paula voltou os olhos para Caio. Não parecia ofendida. Parecia cansada.

— Você sabe como editor trabalha. Eu mandei quinze fotos. A dele olhando para ela, ela com o microfone, a mesa inteira, plateia. Escolheram a mais forte.

— A mais isolada.

— Também.

— Você avisou que havia contexto?

— Caio, eu sou freelancer. Mando legenda, crédito e arquivo. Não dirijo o veículo.

— Mas mandou a que sabia que seria usada.

— Mandei uma foto boa.

— Boa para quem?

Paula riu sem alegria e encostou a xícara no pires.

— Ontem essa pergunta era da Marina. Hoje é sua?

— Hoje é minha.

— Que bonito. A pedagogia do desejo funcionando ao vivo.

Caio aceitou a pancada. Merecida, talvez. Parcial, com certeza. Abriu o notebook e mostrou a sequência em que Ernesto olhava a tela da câmera dela. Paula ficou quieta. Não fingiu surpresa. Isso confirmou metade do que ele temia.

— Ele pediu para ver? — Caio perguntou.

— Pediu. Eu mostrei. Ele disse que a foto condensava a discussão.

— E você mandou.

— Eu já tinha mandado.

— Antes?

— Antes. Ele viu depois do envio, antes da publicação. Eu não sou personagem da sua culpa, Caio.

— Eu sei.

— Sabe?

Ele fechou o notebook pela metade e respirou. Paula não era vilã. Isso tornava a conversa menos satisfatória e mais necessária. Ela tinha feito o que muitos fotógrafos fariam: entregara a foto forte. Ele mesmo já fizera isso. Talvez por isso a raiva nele tivesse um gosto conhecido demais.

— Eu vou retirar minhas fotos da cobertura restante se a organização não criar regra clara de legenda e uso de bastidor — Caio disse.

Paula ergueu as sobrancelhas.

— Isso é gesto ou crise?

— Pode ser os dois.

— Você sabe que eles substituem você em duas horas.

— Sei.

— E que metade dos editores vai achar que você misturou cama com trabalho.

Caio olhou para ela.

— Já misturei quando achei que cuidado privado compensava omissão pública.

Paula ficou em silêncio. Pela primeira vez naquela manhã, pareceu menos armada.

— Ela sabe que você vai fazer isso?

— Não.

— Então talvez ainda tenha chance de ser gesto, não teatro.

Às nove, Caio estava diante da coordenação do festival numa sala com ar-condicionado forte demais, duas cadeiras de escritório, uma mesa cheia de crachás soltos e uma caixa de ecobags que ninguém mais queria. A coordenadora se chamava Helena, tinha voz baixa e unhas vermelhas descascadas na ponta. Ouviu tudo sem interromper: a foto, a troca posterior, a sequência em que Ernesto via a imagem, a indireta, a sala de serviço, a possibilidade de gravações off, o pedido de Marina por não ser fotografada, a necessidade de regra para bastidor e legenda. Ao lado dela, Tiago, do portal, participava por chamada de vídeo com a expressão de quem preferia estar em qualquer lugar com internet pior.

— Você está pedindo que a organização censure cobertura? — Helena perguntou.

— Não. Estou pedindo consentimento claro para bastidor, legenda factual e que foto de participante em situação de confronto não seja usada como isca sem contexto quando a própria mesa discutia esse mecanismo.

— Isso é uma interpretação editorial.

— Sim. E vocês estão fingindo que festival não edita nada.

Tiago pigarreou no computador.

— Nós trocamos a foto principal ontem.

— Depois que ela circulou.

— Porque Marina pediu?

— Porque eu pedi como fotógrafo creditado. Ela não deveria precisar gastar o resto da tarde administrando o uso da própria imagem.

Helena cruzou os braços. Caio conhecia aquela postura. Era a posição de quem já calculava custo, reputação, agenda, patrocinador, vaidade de convidado e barulho em rede social. Não era maldade pura. Era gestão. A gestão tinha mãos limpas até a hora de tocar na pele de alguém.

— O que você propõe objetivamente? — ela perguntou.

— Uma nota interna agora. Bastidor só com consentimento individual. Foto de mesa pode seguir, mas legenda precisa nomear tema, não reduzir a embate pessoal. Nada de publicar imagem de quarto, corredor de hotel, refeição ou sala de serviço sem autorização expressa. E a organização precisa parar de reembalar isso em roda gravada com Marina e Ernesto vendida como repercussão.

— A roda já foi recusada por ela.

— Então não substituam por outra armadilha.

Tiago mexeu em algo fora da tela.

— Você está falando como fotógrafo oficial ou como envolvido?

Caio sentiu a frase chegando ao lugar que todos fingiam evitar. Helena olhou para ele com interesse prático.

— Os dois — Caio disse.

O silêncio que veio depois não foi grande, mas foi definitivo. Ele poderia ter escolhido um. Fotógrafo oficial, com ética profissional. Homem envolvido, com viés afetivo. Escolher os dois era perder a proteção de ambos. Paula tinha razão: talvez ainda houvesse chance de ser gesto, não teatro, justamente porque custava alguma coisa.

— Então há conflito de interesse — Tiago disse.

— Há. Por isso estou me afastando da cobertura de Marina a partir de agora. Posso entregar as fotos de contexto já feitas, com autorização de uso amplo de mesa e palco, e continuo cobrindo outros eventos se vocês aceitarem a regra. Se não aceitarem, saio da cobertura do festival.

Helena descruzou os braços.

— Você sabe o transtorno que isso causa?

— Sei.

— E sabe que isso pode afetar próximos contratos?

— Sei.

— Está bem — ela disse, depois de alguns segundos. — Vou mandar a orientação interna. Você não cobre mais Marina. Paula cobre as mesas gerais com outro fotógrafo da equipe, e qualquer imagem dela passa pela curadoria da comunicação antes de sair. Nada de bastidor sem autorização. A roda de repercussão está cancelada no formato com ela. Mas, Caio, se isso virar assunto entre convidados, eu vou dizer que você declarou conflito de interesse.

— Pode dizer.

— E se Marina reclamar?

— Ela tem esse direito.

Helena olhou para ele como se, pela primeira vez, a conversa tivesse se tornado menos irritante e mais legível.

— Você contou para ela?

— Ainda não.

— Corajoso ou burro?

— Hoje talvez seja a mesma coisa.

Quando saiu da sala, Caio encontrou Ernesto no corredor. Não havia coincidência inocente em Paraty. Ernesto segurava um café, livro debaixo do braço, camisa clara impecável apesar da umidade. Olhou para Caio sem surpresa.

— Reunião produtiva? — Ernesto perguntou.

— Administrativa.

— Às vezes o administrativo revela mais do que o debate.

Caio parou. Era a primeira vez que ficavam sozinhos desde o início do festival. O corredor tinha uma janela aberta para a chuva fina, um cartaz torto da programação e uma pilha de cadeiras dobráveis junto à parede. Nada ali favorecia pose, mas Ernesto carregava a própria.

— Você viu a foto da Paula antes da publicação — Caio disse.

— Vi várias fotos.

— Comentou que aquela condensava a discussão.

— E não condensava?

— Condensava a versão que servia a você.

Ernesto sorriu com cansaço educado.

— Você está confundindo análise com conspiração porque dormiu com a autora analisada.

Caio sentiu vontade de dar um passo à frente. Não deu. A frase de Marina na escada veio de novo: posição, não cuidado. Posição não era soco. Infelizmente.

— Eu declarei conflito de interesse e saí da cobertura dela — Caio disse. — Você deveria declarar o seu.

— O meu?

— Você consome o escândalo que critica. Ajuda a imagem a circular, depois chama a circulação de prova. É um método eficiente. Sujo, mas eficiente.

Ernesto perdeu uma camada do sorriso.

— Cuidado, Caio. Você é fotógrafo. Sua autoridade aqui é bastante específica.

— Exatamente. Por isso estou falando de imagem.

— Está falando de Marina.

— Também. Com nome.

O corredor pareceu estreitar. Ernesto olhou para a janela, depois para Caio.

— Ela sabe que você está fazendo defesa pública?

— Não é defesa dela. É responsabilidade minha.

— Diferença conveniente.

— Diferença verificável.

A palavra saiu antes que Caio decidisse usá-la. Marina teria odiado, talvez. Ou rido. Ou as duas coisas, que nela frequentemente eram a mesma ameaça. Ernesto não respondeu. Passou por ele com o café na mão e desapareceu na direção da recepção. Caio ficou alguns segundos parado, sentindo a adrenalina descer tarde demais. Depois mandou uma mensagem para Marina: “Preciso te contar uma coisa. Quando você quiser. Sem urgência de resposta.”

Ela não respondeu.

Marina viu a mensagem durante o intervalo entre uma entrevista curta para rádio universitária e uma sessão de autógrafos que não estava na agenda, mas apareceu como todas as coisas ruins: alguém sorriu e disse que seria rápido. Leu “preciso te contar uma coisa” e sentiu o estômago fechar. Não respondeu porque ainda havia gente na frente dela com livros, celulares, elogios, perguntas sobre escrita explícita, uma senhora dizendo que a filha adorava seus textos e um rapaz perguntando se ela dava oficina. Assinou doze exemplares, posou para três fotos autorizadas, recusou duas com gentileza firme e recebeu uma atualização da produtora: a roda de repercussão com Ernesto fora cancelada, e a comunicação interna reforçara regras de bastidor e legenda.

— Quem decidiu isso? — Marina perguntou.

— A coordenação — a produtora respondeu, ocupada demais para perceber o perigo da pergunta.

— Por quê?

— Acho que depois da matéria de ontem preferiram cuidado. O Caio também falou com eles cedo.

Marina segurou a caneta com força suficiente para marcar o dedo. A produtora continuou falando sobre horários, crachás e deslocamentos, mas o nome dele já tinha deslocado o resto. Caio também falou com eles cedo. Não contou, não pediu permissão, não mandou anexo, não ofereceu prova como quem bate à porta com flores. Agiu. A primeira reação dela foi raiva. A segunda, pior, foi alívio. A terceira veio em seguida para punir as duas: quem autorizou?

Encontrou-o às quatro da tarde, na parte de trás da casa de cultura, perto de uma porta de serviço onde caixas de som eram carregadas por dois técnicos. Caio estava sem câmera. A ausência dela deixou o corpo dele quase estranho, como se faltasse uma peça que o mundo usava para reconhecê-lo. Marina parou a três passos.

— Você saiu da minha cobertura — ela disse.

— Saí.

— Declarou conflito de interesse.

— Sim.

— Para quem?

— Helena. Tiago. Depois Ernesto ouviu uma parte que merecia ouvir.

Marina riu uma vez, seca.

— Claro que Ernesto ganhou ingresso.

— Ele já estava no teatro.

— Você ia me contar quando?

— Quando você quisesse ouvir. Mandei mensagem.

— Depois de fazer.

— Sim.

A resposta dela ficou presa por um segundo. Ele não pediu desculpa pelo ponto errado. Isso dificultava a briga, e ela precisava da briga. A chuva tinha parado, mas a água ainda caía dos beirais em gotas grossas. Um dos técnicos passou com uma caixa, pediu licença, e os dois abriram espaço sem se olhar.

— Você entende que isso também me coloca numa posição? — Marina perguntou. — Agora, se perguntarem, eu sou a autora que fez o fotógrafo largar cobertura porque está dormindo com ele.

— Eu entendo.

— Entende depois ou entendeu antes?

— Antes. Fiz mesmo assim.

— Que conveniente.

— Não foi conveniente para mim.

— Essa é a parte em que eu devo agradecer pelo sacrifício?

Caio olhou para ela com cansaço. Não o cansaço performático de homem injustiçado. Um cansaço feio, de noite mal dormida, café ruim e decisão tomada com medo.

— Não. É a parte em que você pode ficar puta porque eu agi sem te pedir autorização. E também é a parte em que eu digo que continuei dentro da cena enquanto fingia que cuidado privado bastava. Hoje eu saí da parte que dependia de mim.

Marina sentiu a frase procurar espaço. Não queria dar. Ainda assim, ela entrou. Era isso que tornava Caio difícil: quando acertava, acertava não com charme, mas com responsabilidade. A responsabilidade, nela, provocava menos desejo imediato e mais uma espécie de dor adulta que ela não sabia onde guardar.

— O que você fez exatamente? — ela perguntou.

Ele contou. Sem floreio. Paula, a sequência da câmera, Ernesto vendo a foto, a reunião com Helena e Tiago, a orientação interna, a saída da cobertura dela, a conversa no corredor. Marina ouviu sem interromper, exceto uma vez, quando ele disse “diferença verificável” para Ernesto.

— Você usou minha frase com ele?

— Usei.

— Canalha.

— Um pouco.

— Funcionou?

— Ele odiou.

— Então talvez eu permita.

O quase humor apareceu e sumiu rápido. Marina encostou a mão na parede úmida da casa de cultura. A pedra estava fria. Atrás deles, técnicos discutiam cabo. À frente, a cidade seguia bonita, comercial, molhada, pronta para a próxima mesa. Ela olhou para Caio sem câmera e sentiu falta dela por um motivo estranho: a câmera era também a desculpa para ele não estar tão nu em público.

— Eu ainda não sei se isso melhora ou piora — ela disse.

— Eu também não.

— Mas você fez.

— Fiz.

— Sem me pedir para transformar isso em perdão.

— Sim.

Marina aproximou-se um passo. Caio não se moveu. Ela tocou a camisa dele, bem no centro do peito, onde na véspera tinha sentido o coração. Não era carícia. Também não era empurrão. Era uma verificação ridícula, física, sua. O coração estava ali, rápido.

— Eu estou cansada de ser consequência — ela disse.

— Eu sei.

— E estou cansada de homens fazendo coisa sobre mim, até quando fazem coisa certa.

— Eu sei.

— Então não usa isso para subir ao meu quarto hoje.

— Não vou.

Ela tirou a mão do peito dele.

— E não desaparece só porque eu não abri a porta.

— Não vou.

Marina riu baixo, sem alegria.

— Você percebe a merda do equilíbrio?

— Percebo.

— Ótimo. Sofra com ele.

Saiu antes que ele respondesse, porque se ficasse mais um minuto talvez o beijasse, e o beijo, naquela hora, seria uma saída fácil demais para uma coisa que finalmente tinha começado a ficar difícil do jeito certo.

À noite, Marina ficou no quarto escrevendo. Não a fala principal ainda, não a entrevista, não uma nota pública. Escreveu uma cena sem título em que uma mulher percebe que o homem diante dela fez a coisa certa e, mesmo assim, ela não lhe deve o próprio corpo como recibo. A cena começou ruim, cheia de frase explicativa. Ela cortou. Começou de novo com uma mesa de fórmica, um copo plástico marcado por batom, uma câmera fechada dentro de uma mochila e uma mulher dizendo: “Não use meu alívio como chave.” Melhor. Menos limpo. Mais perto.

Caio não mandou mensagem até quase meia-noite. Quando mandou, era simples: “Estou na recepção se precisar de qualquer coisa. Se não precisar, também fico.” Marina leu, apoiou o celular sobre a mesa e continuou escrevendo por mais vinte minutos. Depois respondeu: “Não preciso. Registrei que ficou.”

Ele respondeu: “Boa noite.”

Marina não respondeu. Apagou a luz, deitou e ouviu o hotel diminuindo aos poucos, porta, passo, cano, risada distante, chuva voltando fraca. Pela primeira vez desde a foto, a raiva não desapareceu, mas se organizou em pilhas menores. Caio tinha saído da lente. Talvez tarde. Talvez de modo imperfeito. Talvez ainda dentro demais da cena. Mesmo assim, tinha saído de uma parte dela sem pedir aplauso.

No andar de baixo, ele ficou. Isso, no escuro, não resolveu nada. Serviu.

Depois do Décimo Segundo

Sinopse

Romance erótico contemporâneo centrado em Marina, escritora de literatura hot, e Caio, fotógrafo do circuito editorial. A obra acompanha desejo, imagem, autoria e a disputa sobre quem tem direito de narrar o corpo de uma mulher.

Publicado no Aurora/Literunico com leitura em capítulos.

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